Tecnologia ianomâmi

A casa coletiva da aldeia Watoriki (Reprodução/Foto: William Milliken)

A coluna (aqui, só para assinantes) Ciência em Dia de ontem, na Folha, trata de um belo livro, "Urihi A - A Terra-Floresta Yanomami", de onde foi extraída a foto acima. Infelizmente, deixei de levar em conta as respostas abaixo que me foram enviadas por um dos autores, Bruce Albert, pois elas só chegaram às minhas mãos na sexta-feira, quando a coluna já estava impressa.

Esta é uma das muitas vantagens de publicar um blog. Sempre é possível complementar o trabalho jornalístico "normal", por assim dizer, com material adicional para os leitores que quiserem ir além. Com a palavra, Albert:


Houve versão anterior do trabalho publicada em outra língua?

O livro é uma versão  reescrita, reorganizada e muito atualizada (dados de campo, análise da bibliografia) de um livro publicado em 1999 pela editora do Kew Botanical Gardens, cujo titulo era "Yanomami – A forest people" (inédito em português).

Você e Milliken são ambos antropólogos ou têm também formação em biologia/botânica?

Eu sou antropólogo, francês, com doutorado (1985) pela Université de Paris X Nanterre, diretor de pesquisa do IRD (Institut de recherche pour le développement) e pesquisador associado do ISA. Trabalho com os Yanomami desde 1975 e criei a CCPY em 1978 com a Claudia Andujar e o Carlo Zacquini.
William, inglês, é doutor em etnobotânica pela Universidade de Cambridge (1999) e chefe da Unidade de Botânica da América
Tropical nos Royal Botanic Gardens, Kew. Começou a trabalhar comigo nos Yanomami em 1993. Trabalhou também no Brasil com varios povos indigenas além dos Yanomami: Macuxi, Wapixana, Ye'kuana, Waimiri Atroari, Wai Wai, Ingariko.
 
Em poucos trechos do livro são usados nomes comuns das plantas. Na maioria das vezes aparecem só os nomes científicos e
Yanomami, o que dificulta a leitura por leigos como eu. Foi uma escolha deliberada?

Foi uma escolha deliberada sim, por varias razões:

  • muitas das plantas usadas pelos yanomami simplesmente não têm nome popular em português (aliás, algumas  vezes nem havia nome científico: uma foi nomeada com o nome da aldeia de Watoriki/Demini: Trichilia watorikensis – ver na página 36 a nota abaixo da tabela; outra é provavelmente uma nova espécie – ver fim da nota 63 p.46);
  • os nomes populares introduzem frequentemente mais confusão do que ajudam. Eles são, na maioria das vezes, muito vagos e frouxamente abrangentes, podendo se referir a várias espécies muito diferentes;
  • finalmente, é provável que os leitores das cidades ignorem a imensa maioria dos nomes populares das plantas da Amazônia, tanto quanto os nomes científicos.

Pensamos então que ficaria muito pesado no texto acrescentar esses nomes populares pouco confiáveis (quando disponíveis) sem muito ganho para os leitores. A ideia subjacente foi que os especialistas (botânicos, antropólogos, indigenistas etc.) possam se referir aos nomes científicos e yanomami enquanto as descrições e discussões do texto podem dar aos eventuais leitores não especialistas um apanhado geral da riqueza do conhecimento botânico dos Yanomami sem que eles tenham que conhecer cada planta mencionada. Quem quiser saber mais só precisa googlar os nomes científicos para conseguir fotos e bibliografia com muita precisão…
 

Se você tivesse de escolher dois usos de plantas por Yanomami que são muito característicos e incomuns, que divirjam do acervo geral de tecnologias amazônicas, quais seriam?

Tem várias coisas de destaque no conhecimento botanico yanomami:

  • por exemplo, sua considerável farmacopeia vegetal oriunda quase exclusivamente da floresta (o número de plantas medicinais que registram já coloca os yanomami entre os detentores das mais ricas farmacopeias da Amazônia indígena) -  215 plantas, ver p. 120;
  • pode ser também a excepcional diversidade dos seus venenos de pesca: ver pp. 69-73  e Tabela 7;
  • ou coisas mais curiosas como a importância dos cogumelos na sua dieta (mais de 20) ou seu consumo alimentar de flores como a da árvore na+hi - sobre tudo isso ver pp. 45-47.


Foi esse estudo que o levou para pesquisas no território Yanomami? E Milliken? Quando vocês chegaram lá e quanto tempo permaneceram?

No meu caso, não. Cheguei nos Yanomami no começo de 1975 para trabalhar num projeto da Universidade de Brasília-FUNAI destinado a proteger os Yanomami do impacto da Perimetral Norte (projeto dirigido pela Profa. Alcida Ramos, UnB). Portanto trabalho com os Yanomami no Brasil há 35 anos. Passei anos com eles e continuo trabalhando lá várias vezes ao ano com o ISA e a Hutukara Associaçao Yanomami.
Pedi em 1993 ao William para vir trabalhar comigo sobre a etnobotânica yanomami. Fizemos várias viagem de campo juntos nos
anos 1993-1995 e 2002 com uma duração  total de 3 ou 4 meses. Ver páginas 19 e 20. Mas obviamente estão atrás dessas pesquisas meus 30 anos de trabalho e amizade com os Yanomami.
 

Por que escolheu estudar a etnobotânica dos Yanomami? Para documentação de usos que possam depois ser (mal)apropriados por cientistas ou empresas não-índias, ou isso não teve peso na decisão?

Nossa pesquisas começaram no quadro de demandas da ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e seus projetos de campo (assistência em saúde e projetos ambientais) _ ver pp. 20-21.  Nos anos 1993-95 era um estudo para resgate de conhecimento de plantas medicinais, em 2002 um estudo sobre impacto do garimpo na TI [Terra Indígena] Yanomami. Finalmente decidimos  ampliar a pesquisa para dar um panorama dos conhecimentos botanicos yanomami a partir de nossos dados e da literatura sobre esse grupo. Como menciona a introdução do livro, os Yanomami são muito conhecidos por várias coisas: guerras e polêmicas a propósito da sociobiologia, seu xamanismo, sua vitimização pelo garimpo, as polêmicas do livro do Patrick Tierney e recente documentario de José Padilha etc., mas não por uma coisa muito óbvia: seu extraordinário conhecimento e uso da floresta  (ver na conclusão do livro por que este saber se destaca entre os povos da Amazônia pp 149-152). Mostrar isso nos pareceu uma maneira de contribuir para  reforçar as justificativas da preservação da TI Yanomami no seu formato atual (a CCPY, cujas atividades foram desde o ano passado assumidas pelo ISA, lutou de 1978 até 1992 para conseguir a homologação da TI Yanomami). Portanto, nosso trabalho sempre teve um cunho de engajamento em prol da causa yanomami.
 
Além disso, foram mencionadas no livro somente identificações de plantas já descritas e bem conhecidas na literatura
etnobotânica. Para as demais optamos por proteger os conhecimentos inéditos específicos aos Yanomami não mencionando seu nomes científicos no texto do livro: ver nota 196 p. 121. Essas espécies foram selecionadas por terem sido registradas e publicadas em outros estudos com as mesmas indicações medicinais atribuídas pelos Yanomami. Nomes de espécies cujas indicações medicinais parecem ser peculiares aos Yanomami foram suprimidos desta e de publicações anteriores, no intuito de minimizar o risco de violação dos seus direitos de propriedade intelectual (vide Milliken e Albert, 1996; 1997a).


Se boa parte da farmacopeia Yanomami é partilhada com vários outros povos indígenas da Amazônia, como ficaria a questão da propriedade intelectual e da repartição de benefícios em caso de isolar-se e sintetizar-se um princípio ativo de aplicação comercial? Quem deveria ser tomado como titular desse conhecimento tradicional gerador de valor?

Não sou um especialista nesse assunto e a ideia de mercantilização dos conhecimentos indígenas não me agrada muito de uma maneira geral. Boa parte das plantas usadas pelos yanomami é, como pode se imaginar, idêntica à de muitos outros povos indigenas da Amazônia. Só uma pequena parte é específica.

Finalmente, a problemática de royalties para uso de plantas medicinais comuns à maioria dos povos da Amazônia ou de algumas grandes regiões (patrimônio coletivo intelectual imemorial) é meio insolúvel, a não ser que esses royalties sejam atribuídos talvez a federações de associações que representam uma maioria dos povos da região ou de sub-regiões com uma porcentagem especial para o povo onde o trabalho de pesquisa  que desembocou na identificação da planta e do princípio ativo foi realizado (o povo "porta de entrada" do conhecimento coletivo enquanto conjunto de pesquisadores indígenas associados).

Mas, repito, não sou um especialista em questões legais nesse campo e isso é uma hipótese improvisada que deveria ser debatida em primeiro lugar com os povos indígenas.