Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Amazônia

Dilema amazônico

 
 

Dilema amazônico

O último número da revista americana The Washington Monthly, criada e mantida por monstros do jornalismo americano como David Halberstam, Greg Easterbrook e James Fallows, traz um dossiê sobre florestas tropicais e mudança climática que inclui um artigo meu, "O Dilema Brasileiro". Traduzo seu último parágrafo:


Noves fora: a batalha está longe de terminar, no que se refere a equilibrar crescimento econômico e conservação na Amazônia, e em Brasília prossegue o cabo de guerra Os efeitos graves do desmatamento amazônico sobre o tempo atmosférico regional e sobre o clima global são cada vez mais bem entendidos. A biodiversidade da floresta permanece impressionante, e ainda persistem por analisar incontáveis espécies de plantas e animais, em busca de seus possíveis benefícios para todos nós. Mesmo assim, a realidade é que, se os brasileiros forem forçados hoje a escolher entre floresta e desenvolvimento, muitos favorecerão a segunda opção, derrubando uma área de floresta igual à que já se perdeu e entregando outros 18% ou mais em troca de desenvolvimento, exportações e prosperidade de curto prazo para poucos. A maioria percorreria alegremente a trilha que a nação já seguiu ao longo de seu litoral ao erradicar a não menos diversa mata atlântica, reproduzindo assim o destino da maior parte das florestas temperadas do mundo desenvolvido.


Os outros colaboradores do dossiê são:

Roger D. Stone, "Mudança no ar";
Paul Brown, "O longo e escaldante verão";
Rhett Butler, "Grande REDD";
David Adam, "De Kyoto a Copenhague";
Mark Rice-Oxley, "Sopa de algas";
Michael Grunwald, "Em favor da grande agricultura"; e
George M. Woodwell, "Florestas no seu limite".

Escrito por Marcelo Leite às 14h39

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O besouro e o tesouro

 
 

O besouro e o tesouro

Poucas ideias causam tanta confusão quanto a ideia fixa com a biopirataria. É a versão biotecnológica do "berço esplêndido": o Brasil possuiria vastas riquezas naturais que permanecem inexploradas ou deixam de beneficiar o país por apropriação indébita por estrangeiros.

Nessa óptica conspiratória, os brasileiros ou são vítimas ou são cúmplices da roubalheira. Incúria ou entreguismo. A tese é popular em alguns setores militares e outros xenófobos, unindo conservadores e esquerdistas.

Não é bem o caso da senadora Marina Silva, cuja defesa do tesouro da biodiversidade amazônica parece difícil de compatibilizar com formas primitivas de nacionalismo. Ela jamais subscreveria uma nova campanha "O petróleo (do pré-sal) é nosso", por exemplo, pois sabe que o futuro pertence às energias renováveis.

Segunda-feira que passou, no entanto, sua coluna nesta Folha trazia o título "O besouro é nosso". Referia-se ao inseto
Lamprocyphus augustus, popularizado um ano atrás como "o besouro fotônico". (...)

Marina Silva mencionou no texto que o besouro havia chegado a Utah por meio de um comerciante belga e de uma transação pela internet. Registrou a suposta perda de US$ 2,4 bilhões anuais pelo Brasil com biopirataria. E concluiu: "Não duvido que, apenas com a tecnologia decorrente das pesquisas com este único besouro, os americanos produzam mais riqueza do que todo o valor anual da exploração ilegal de madeira, da soja e do gado na Amazônia". (...)

Consultada sobre a possibilidade de seu texto realimentar a lenda, a senadora explica que o besouro constitui apenas um exemplo. Foi usado, justificou, para enfatizar a necessidade de "investir fortemente em pesquisas e na adequada regulamentação daquilo que nossos biomas contêm".

Confrontado com a frase de Marina Silva (...) Michael H. Bartl, autor do estudo de Utah, viu nela algum exagero. (...) "Nesse meio tempo também descobrimos estruturas similares em vários outros besouros, que nos permitirão não só manipular a luz verde (L. augustus), mas também a azul e a vermelha (cobrindo basicamente toda a faixa da luz visível)".

Em outras palavras: não há nada de especial no Lamprocyphus augustus. Existem dezenas, centenas de milhares de espécies de besouros pelo mundo. Mesmo que os azuis e os vermelhos também saiam daqui, isso não nos torna mais ricos nem mais pobres do que sempre fomos.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 13h07

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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