Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Amazônia

Isto é Blairo Maggi

Isto é Blairo Maggi

 

O governador Blairo Maggi (Foto: Marcos Bergamasco)

Veja o que a gente é obrigado a ouvir de Blairo Maggi, governador de Mato Grosso, em entrevista a André Luís Nery no G1:


G1 - Mas o ministro disse que os dados que vão ser divulgados na segunda-feira (26) mostram um aumento do desmatamento, principalmente em Mato Grosso.
Maggi - O estado de Mato Grosso, diferente dos outros estados, você tem que ter uma compreensão... Primeiro, é um estado agrícola, e as pessoas que vivem no estado ou vieram para o estado de Mato Grosso não vieram para... Como falam o italiano e o alemão, vieram para fazer a vida. Vieram aqui plantar e esperar 20 ou 30 anos para poder ter uma estabilidade financeira. O povo aqui do estado não tem a cultura extrativista que tem nos outros estados da região amazônica. Isso, inclusive, é uma reivindicação, dentro do PAS (Plano Amazônia Sustentável), que eu fiz ontem [terça, 20] ao ministro Mangabeira [Roberto Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos, coordenador do plano] e que nós vamos discutir. Para Mato Grosso, nós precisamos ter uma política diferenciada, porque a população aqui é de uma outra origem e que tem outros anseios e outros desejos.


Traduzindo do ítalo-alemão: deixa nóis desmatar porque nóis não semo índio.

Escrito por Marcelo Leite às 19h37

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Marina e o urso na Nature

Marina e o urso na Nature

O primeiro editorial do periódico científico Nature, que circula amanhã, trata de dois emblemas da luta contra a destruição do ambiente: o urso polar (Ursus maritimus) e Marina Silva. Título do editorial: "Dois símbolos, uma solução".

O urso, ícone do aquecimento global, teve sua situação de espécie ameaçada reconhecida por ninguém menos que o governo dos Estados Unidos. Até há pouco tempo, a moçada de Bush era capaz de mover mundos e fundos para negar que exista uma mudança climática causada pela espécie humana ou impedir que uma espécie de coruja ameaçada atrapalhasse a economia.

Marina Silva serve de pretexto, no editorial, para atacar as idéias arrogantes e imperialistas de outro órgão de imprensa britânico, o diário The Independent. Diz a Nature:


Embora a renúncia de Silva decerto suscite questionamentos sobre a viabilidade do [P]lano [Amazônia Sustentável, PAS] do governo, os líderes do Brasil estão corretos em dizer que a Amazônia precisa de um plano abrangente. É condescendente e contraproducente dizer, como o jornal The Independent do Reino Unido fez recentemente, que a Amazônia é importante demais para ser deixada nas mãos dos brasileiros. Afinal, essa região é o lar de cerca de 25 milhões de brasileiros que precisam ganhar a vida, e ela provê a hidreletricidade que impulsiona boa parte da crescente economia brasileira. O Brasil não tem escolha, a não ser administrá-la.


Há muitos sinais no ar de que essa gestão vai se complicar, no curto e médio prazo, ainda mais do que já se complicou no último ano, culminando na saída de Marina Silva. Duas décadas atrás, a intervenção de índios e movimentos sociais foi capaz de impedir o prosseguimento do plano de construir um colar de usinas no rio Xingu, quando o Banco Mundial brecou seu financiamento depois que a índia Tuíra encostou seu terçado (facão) várias vezes no rosto de um diretor da Eletronorte. Imagine agora que um engenheiro da Eletrobrás teve o braço ferido por facão - de novo, de caiapós - logo na primeira reunião para discutir a usina de Belo Monte. E isso num momento em que o planejamento energético do país precisa desses 11.100 MW para não ficar às escuras...

Uma das razões menos faladas da saída de Marina Silva foi o veto de Lula e Dilma Rousseff à criação de uma nova unidade de conservação justamente na região do Xingu. Fora do governo, o veto foi tomado como uma indicação de que não está descartada a construção de mais usinas no rio, como constava do plano antigo e hoje a Eletrobrás diz que não está mais no planejamento. Em seguida, a Justiça levantou as liminares que impediam o prosseguimento dos estudos para Belo Monte. Dá para entender por que os índios andam bravos, embora isso obviamente não justifique a agressão.

Além disso, se a relação de governadores como Blairo Maggi (MT), Ivo Cassol (RO) e José de Anchieta Jr. (RR) com Marina Silva já era ruim, com Carlos Minc ela começou pior. Minc disse que Maggi plantaria soja nos Andes, se deixasse; Maggi reagiu dizendo que negará PMs para a Guarda Florestal Nacional do "Minc-leão-dourado", como já está sendo apelidado o novo ministro; este, na tréplica, antecipou-se ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e anunciou que na segunda-feira saem novos dados de desmatamento na Amazônia, comparando os cinco primeiros meses de 2008 com o mesmo período de 2007 (o que é um pouco estranho, pois maio ainda está em curso), e que Mato Grosso mais uma vez aparece à frente, com aumento de 60%.

De quebra, Minc disse que não adianta Maggi ficar brigando com ele, ministro, pois a política de contenção do desmatamento é de governo. Ou seja, se Maggi quiser briga, tem de brigar com Lula. Mas Lula, todos sabemos, não quer brigar com ninguém, muito menos em ano eleitoral.

O resumo da ópera é que o nó da Amazônia continuará atado. E os tratores e moto-serras, desatados.

Escrito por Marcelo Leite às 15h37

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Agressão no Xingu

Agressão no Xingu


Não tenho maiores detalhes para sobre episódio em que saiu ferido Paulo Fernando Rezende, coordenador dos estudos da Eletrobrás para a polêmica hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu - próximo grande projeto do governo Lula na Amazônia. Só posso repudiar o ato do agressor, índio ou branco. Uma coisa é pôr o facão na cara de um engenheiro, como fez a índia Tuíra duas décadas atrás; outra é usá-lo para golpear e ferir um funcionário. Só espero que o episódio não assanhe ainda mais as preconceitos antiindígenas

Reproduzo abaixo as duas comunicações oficiais que chegaram ao meu conhecimento:


No site da Eletrobrás:

Engenheiro da Eletrobrás é ferido em Altamira

O Engenheiro Paulo Fernando Rezende, coordenador dos estudos de Belo Monte, foi ferido, hoje à tarde, durante evento em Altamira, no Pará, organizado pela Arquidiocese de Altamira, Instituto Sócio Ambiental (ISA) e por várias outras organizações não governamentais.

Paulo Fernando já teve atendimento médico e, agora, estão sendo feitos registros policiais necessários.

O Engenheiro da Eletrobrás foi à Altamira, convidado pelos organizadores do evento, para apresentar os estudos que estão sendo feitos sobre aproveitamento hidrelétrico de Belo Monte.

A Diretoria Executiva da Eletrobrás manifesta sua indignação diante do ocorrido e afirma que tomará todas as providências necessárias para que os responsáveis pela agressão sejam punidos.


Dos organizadores do Encontro Xingu Vivo:

NOTA OFICIAL À IMPRENSA

A comissão organizadora do /Encontro Xingu Vivo para Sempre/ vem lamentar o episódio ocorrido nesta terça-feira, dia 20 de maio, no Ginásio Poliesportivo de Altamira, quando o representante da Eletrobrás e coordenador dos estudos de inventário da Usina Hidrelétrica de Belo Monte sofreu uma agressão que lhe ocasionou ferimentos. O evento reúne representantes de comunidades indígenas, ribeirinhas, agricultores e movimentos sociais para discutir os projetos hidrelétricos planejados para a Bacia do Rio Xingu. O triste episódio não representa o espírito democrático de diálogo desse encontro, que busca dar voz a todos os atores e segmentos sociais envolvidos e afetados por esses projetos.
Comissão Organizadora do Encontro Xingu Vivo para Sempre

Escrito por Marcelo Leite às 20h01

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Marina, crédito e descrédito

Marina, crédito e descrédito

Coluna Ciência em Dia
Folha de S.Paulo
18 de maior de 2008

Tempestade na região de Santarém (Foto: David McGrath)

Muito já se escreveu sobre a saída de Marina Silva do governo, quase sempre com ênfase nas suas derrotas. Assentada a poeira, começa a ficar claro que a ministra do Meio Ambiente caiu pelo que fez, não pelo que não quis ou não pôde fazer.

Qualquer pessoa que tenha lido um bom livro sobre a Amazônia aprendeu que na raiz dos problemas está a desordem fundiária. Aquela metade do país que os brasileiros só sabem onde fica porque está pintada de verde no mapa é o paraíso da grilagem, da ocupação ilegal de terras públicas.

Quase ninguém tem título de propriedade regularizado. Em três recadastramentos rurais feitos no país (1999, 2001 e 2004), documentos de 200.000 km2 de terras foram validados. Mas o cadastro de outros 200.000 km2 de imóveis foi cancelado, a maior parte na Amazônia.

É instrutivo ler o que diz a organização não-governamental Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) no estudo "Quem é Dono da Amazônia". Isto, claro, se o leitor tolerar que uma ONG de Belém receba dólares da Fundação Gordon & Betty Moore.

"No fim de 2006 ainda estavam em trâmite ou sem informação processos referentes a 56 milhões de hectares [cada milhão de hectares equivale a 10 mil km2, meio Sergipe] e havia 20,6 milhões de hectares de casos arquivados sem a verificação da documentação estadual apresentada pelos detentores dos imóveis", diz o documento.

"Mais de 40 milhões de hectares de posses permaneciam irregulares", prossegue o Imazon. "O governo federal conseguiu apenas iniciar um projeto-piloto para implantação do CNIR [Cadastro Nacional de Imóveis Rurais], incluindo somente o Maranhão dos nove Estados da Amazônia Legal."

Muitas terras retomadas terminam inseridas em novas unidades de conservação (UCs) federais, como parques e florestas nacionais, nas áreas prioritárias para a biodiversidade mais ameaçadas pela frente agrícola.

As UCs criadas na era Lula abrangeram mais de 230 mil km2, quase um Estado de São Paulo. Somando as terras indígenas, um terço da Amazônia já está interditado para grileiros. Aí vem Marina Silva, em dezembro, e divulga uma lista de 36 municípios da Amazônia que mais desmatam.

Em janeiro, o governo federal bloqueia autorizações para desmatamento em todos eles (cada proprietário pode derrubar, legalmente, até 20% de sua área). Concentra aí o recadastramento fundiário e embarga a comercialização de produtos das propriedades rurais irregulares.

Em fevereiro, vem o golpe mais duro. Uma resolução do Conselho Monetário Nacional proíbe crédito de bancos públicos e privados nos 550 municípios da Amazônia, a partir de julho, a proprietários rurais que não documentem licença ambiental do imóvel rural, respeito à reserva legal e CCIR (Certificado de Cadastro do Imóvel Rural).

Era essa a conversa dos agrogovernadores com Lula, na reunião em que o presidente humilhou a agora ex-ministra. Eles só pensam em desacreditar os dados do desmatamento, parar com essa história de "dar" terra para índio e bicho, tirar seus municípios da lista da devastação e reverter as medidas asfixiadoras.

Querem crer que, com Carlos Minc associado a Dilma Rousseff, Reinhold Stephanes e Roberto Mangabeira Unger, tudo será mais fácil. Não falta quem esteja disposto a lhes dar crédito. A dívida será paga com o bom e velho capital natural do Brasil, ou seja, desmatamento.


Pós-escrito


Embora já tivesse escrito "a quente", na Folha, sobre a saída de Marina Silva, a releitura daquele comentário - um tanto convencional, na linha de relacionar as derrotas etc. - deixou-me um tanto insatisfeito. Era muito baixa sua contribuição explicativa para o fato novo, a saída da ministra do Meio Ambiente neste exato momento, e não outro. Em grande medida, o texto, escrito às pressas, repetia o que já havia dito em dezembro, noutro comentário sobre a (quase) demissão de Marina Silva na passagem do primeiro para o segundo mandato (leia aqui).

Depois de publicada a análise, na quarta-feira, conversei por cerca de meia hora com Marina Silva. Foi uma conversa em "off", ou seja, nada do que ela disse poderia ser usado. Mas serviu para abrir-me os olhos para certas circunstâncias que, embora conhecidas, terminaram ocultadas pela espuma na superfície da demissão, inflada pela conversa mole da indicação de Mangabeira Unger para coordenar o Plano Amazônia Sustentável (PAS) e da suposta "irritação" de LUla com a maneira como a ministra se demitiu, blá-blá-blá.

Bastou um pouco de conversa e pesquisa para ficar evidente que a demissão tinha mesmo a ver com a questão dos freios eficientes para a atividade de exploração predatória da Amazônia: concessão seletiva de crédito e criação de novas unidades de conservação (UCs). Foi ao prever que viriam - ou já estavam vindo - recuos nessas áreas que Marina Silva apeou-se do governo federal.

Ao mesmo tempo, criou uma armadilha inteligente para Lula e o novo ministro, Carlos Minc: se recuarem no torniquete ambiental do crédito e prosseguir a resistência a criar novas UCs para barrar a fronteira agrícola, ficará ainda mais evidente que a troca de ministros teve como motivação, sim, o afrouxamento das exigências em prol da floresta. Em outras palavras: crédito e UCs passaram a ser os indicadores, o teste da seriedade das intenções do governo Lula diante da tempestade que se forma sobre a Amazônia, agora que não pode mais contar com seu pára-raios.

Escrevi a coluna na quinta-feira à tarde, por causa do fechamento antecipado do caderno no qual sai a coluna. Na entrevista a Marta Salomon publicada hoje na Folha, Marina Silva já fala em "on" sobre essas questões.

Escrito por Marcelo Leite às 18h22

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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