Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Amazônia

Belo Monte de objeções

 
 

Belo Monte de objeções

 

Representantes de uma grande coalizão de opositores da usina hidrelétrica Belo Monte, no rio Xingu (símbolo maior da generosa tradição de política indigenista iniciada por Rondon), entregaram no Palácio do Planalto uma carta com 12 páginas de argumentos contra a barragem. Entregaram também uma petição contrária a ela com 604 mil assinaturas.

Não conclua já que o documento traz um amontoado de palavras de ordem ambientalistas, antropológicas e bom-mocistas. Há disso lá, mas há também argumentos racionais, técnicos e econômicos – além de valores, claro, que também é preciso debater serenamente. Cito:


Garantir a adoção de uma perspectiva ampla de planejamento da matriz elétrica, implantando metodologias de avaliação de impactos que captem e internalizem os custos socioambientais hoje externalizados, com parâmetros de análise do custo-benefício social, econômica e ambiental que permitam a identificação de alternativas com maior benefício social e econômico e menor custo social e ambiental. Assim, as orientações estratégicas de uma política energética brasileira no século 21 devem incluir, entre outras:

a) prioridade para maximizar a eficiência energética nos sistemas de geração (inclusive no aumento da potência de hidrelétricas existentes), transmissão e consumo (industrial, comercial, residencial); Vale lembrar que só o desperdício de energia nos sistemas de transmissão no Brasil, de cerca de 20 gigawatts, é equivalente a cinco usinas de Belo Monte!

b) apoio ao desenvolvimento tecnológico e ampliação de escala de fontes alternativas renováveis: solar, eólica e biomassa;

c) garantia do pleno respeito dos direitos humanos, inclusive os direitos de povos indígenas e outras populações tradicionais a seus territórios, e o reconhecimento da dinâmica dos sistemas ecológicos, no planejamento dos empreendimentos;

d) plena articulação da política energética, inclusive o Plano Nacional de Energia (PNE) com outras políticas públicas estratégicas, referentes à gestão de bacias hidrográficas, áreas protegidas, desenvolvimento territorial, conservação da biodiversidade, mudanças climáticas e direitos das populações tradicionais.

Escrito por Marcelo Leite às 19h46

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Democracia à ianomâmi

 
 

Democracia à ianomâmi

Crianças ianomâmi bricam perto de assembleia

 

(Foto: Marcelo Leite)

 

Em sete dias de assembleia e eleições na comunidade de Toototobi, no Estado do Amazonas, Davi Kopenawa foi reeleito líder da associação Hutukara, que representa os interesses dos índios ianomâmis. Debates entre líderes e eleitores e negociações com o Estado brasileiro apontam o domínio dos ianomâmis sobre as artes da costura política, com um estilo peculiar.

 

A Folha acompanhou com exclusividade a reunião, narra na reportagem que pode ser lida aqui (por quem for assinante do jornal ou do UOL). Mas a Folha.com tem mais material sobre o tema, com acesso aberto.

 

Você vai encontrar ali uma galeria de fotos do evento (destaque para as imagens do médico e fotógrafo Edson Sato) e um pouco de contextualização sobre a história dos ianomâmis.

 

Escrito por Marcelo Leite às 12h22

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Ameaça a ianomâmis da Venezuela

 
 

Ameaça a ianomâmis da Venezuela

Fila de ianomâmis na assembleia da Hutukara

Foto: Marcelo Leite/Folhapress

A Folha de hoje destaca reportagem sobre mortes misteriosas de índios ianomâmis na região de Maiyotheri, na Venezuela. Começa assim:


Autoridades de saúde da Venezuela têm conhecimento desde 31 de julho de um surto de malária e talvez outras doenças entre índios ianomâmis nas aldeias Maiyotheri, Awakau e Pooshitheri, no município de Alto Orinoco (sul do país). Pelo menos 17 índios morreram.
A Folha apurou com agentes sanitários que podem ter sido mais de 50 vítimas.

Qualquer que seja o número exato, trata-se de 10% a 25% da população local. As causas ainda são incertas, mas entre elas está a precariedade do atendimento à saúde.

A denúncia foi apresentada por ianomâmis venezuelanos na Quarta Assembleia Geral da Hutukara Associação Yanomami, realizada em território brasileiro, na antiga aldeia Toototobi (AM), 340 km a oeste de Boa Vista (RR). Hoje, lá funciona um posto de saúde dentro da Terra Indígena Yanomami.

O encontro, encerrado no último domingo, durou uma semana. Reuniu por volta de 600 indígenas de várias aldeias, a maioria do Brasil.Só em 13 de outubro a primeira equipe venezuelana de saúde chegou às áreas afetadas, após três dias de caminhada. Voltaram com o relato de 51 mortos, mas houve outras duas mortes depois. (…)


Leia também o que dizem autoridades venezuelanas, aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 09h07

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Teoria dos refúgios ao relento

 
 

Teoria dos refúgios ao relento

Cinco anos atrás, editei dois números da revista acadêmica Ciência&Ambiente dedidados à Amazônia. O primeiro deles (nº 31, jul/dez.2005) trazia um artigo de José Maria Cardoso da Silva, "Áreas de endemismo na Amazônia", que punha em dúvida a chamada Teoria dos Refúgios, associada com os nomes de dois gigantes da ciência nacional, Paulo Vanzolini e Aziz Ab'Sáber.

Trata-se de uma explicação engenhosa para a enorme quantidade de espécies existentes na floresta amazônica, a mais biodiversa do planeta. Ao longo dos últimos 2 milhões de anos (Quaternário), o clima da região mudou várias vezes. Com fases mais secas, a floresta teria sobrevivido apenas em ilhas ("refúgios"), nas quais as espécies passariam a evoluir isoladamente. Com uma nova fase mais úmida, a floresta teria voltado a crescer, mas as subpopulações das espécies originais já estariam diferentes demais para se reproduzir umas com as outras, tornando-se espécies distintas.

Na realidade, a teoria já se encontrava sob ataque pelo menos desde 2001, quando o pesquisador Paul Colinvaux publicou um artigo propondo que o paradigma fosse abandonado. A reverência diante das figuras de Vanzolini e Ab'Sáber, contudo, contribuiu para prolongar a vida útil da explicação no Brasil.

O zoólogo e o geógrafo sem dúvida contribuíram para desenvolver e firmar a teoria dos refúgios, mas não foram os primeiros a formulá-la. A primazia cabe a Jürgen Haffer, que apresentou a explicação em artigo de 1969 para o periódico Science.

Um novo golpe contra a teoria dos refúgios aparece amanhã, 41 anos depois, na mesma Science. O questionamento parte desta vez de uma mulher, Carina Hoorn, da Universidade de Amsterdã. Em colaboração com outros 17 pesquisadores, ela defende que a megadiversidade amazônica tem raízes muito mais antigas e complexas do que as flutuações climáticas do Quaternário. A especiação furiosa teria começado mais de 10 milhões de anos atrás, após a formação do rio Amazonas e o levantamento dos Andes.

Vanzolini, na ciência e na música, e Ab'Sáber, na geografia e na política, são grandes o bastante para não ter sua reputação arranhada pelo abandono progressivo dos refúgios. Como todos os praticantes e admiradores da ciência, saberão apreciar mais esse passo na marcha interminável do conhecimento objetivo.

Escrito por Marcelo Leite às 19h17

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Expedicionário

 
 

Expedicionário

Verifico que minha reportagem para a revista Piauí sobre a ONG "Expedicionários da Saúde" já está disponível, na íntegra, no site da publicação. Tempos atrás avisei aqui da edição do texto, mas faltava dar acesso pleno a ele.

Escrito por Marcelo Leite às 14h51

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Expedicionários na Piauí

 
 

Expedicionários na Piauí

A revista Piauí de outubro traz reportagem minha sobre o trabalho dos cirurgiões da ONG Expedicionários da Saúde entre índios da Amazônia e estropiados do Haiti. Até o momento em que esta nota foi ao ar, o site da revista ainda dava acesso só ao número anterior, de setembro. 


Atualização às 14h: já se encontra em linha a edição de outubro, mas lamentavelmente meu texto está disponível só para assinantes - você vai ter de ir à banca. Inclusive para ler o que recomendo a seguir:


Aproveito a oportunidade para recomendar, na mesma edição, a excelente análise de André Singer sobre o lado New Deal do sucesso de Lula. Não que concorde com tudo – não acredito, por exemplo, que todo gasto e inchaço do Estado favoreça o proletariado, nos termos de André; antes, boa fatia da prodigalidade petista parece alimentar a burocracia do próprio PT e o aparelhamento do Estado e das estatais por ela. Mas ajuda a entender muito das realizações do lulismo que a direita não tolera, assim como as limitações que ela silenciosamente comemora (como a quase inalterada desigualdade).

 

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h54

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De volta à Lagoa Verde com Callado

 
 

De volta à Lagoa Verde com Callado

A índia calapalo Diacuí, que se casou com Ayres Câmara da Cunha,

funcionário do Serviço de Proteção ao Índio, tendo Assis Chateaubriand

como padrinho (episódio comentado de passagem no livro de Callado)


Eis os dois primeiros e o último parágrafos que escrevi sobre o relançamento de um grande pequeno livro de Antonio Callado sobre o coronel Fawcett e os índios do Brasil:


É preciso ser de ferro, ou de direita (mesmo na paradoxal versão comunista, como a do deputado federal Aldo Rebelo, do PC do B de SP), para não se solidarizar com os índios brasileiros. Esta reportagem sensacional -no mais sóbrio sentido da palavra- de Antonio Callado abriu espaço para tal generosidade no jornalismo contemporâneo nacional.

E também na literatura, ao preparar o caminho para outro clássico do autor, o romance "Quarup". Só isso já seria razão de sobra para ler "O Esqueleto da Lagoa Verde", 57 anos depois de publicado, nesta reedição encorpada com posfácios de Davi Arrigucci Jr. e Mauricio Stycer. (...)

Callado embrenhou-se em Mato Grosso, desencontrou-se de Fawcett e deu com a "África interior". Gostou dos homens e da paisagem. Um mundo escuro que o jornal e a literatura do presente relutam em visitar, abrindo um flanco do tamanho de metade do país para a destruição do que temos de melhor.

ESQUELETO NA LAGOA VERDE

AUTOR Antonio Callado
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 36 (160 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo


Leia a íntegra da resenha na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 14h34

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A exceção e a regra

 
 

A exceção e a regra

Cartaz desenhado por aluno de esnino médio da Escola Tuyuka Utapinopona,

na comunidade São Pedro (Alto Tiquié, AM) - Foto: Marcelo Leite

(...)
"Antigamente, sábio era quem obedecia às regras", pondera Higino Pimentel Tenório, 55, a autoridade reconhecida em São Pedro. Professor há 35 anos, Poani -seu nome cerimonial em tuiuca- lamenta que os jovens tenham abandonado muitos costumes.

Uma das interdições importantes, explica Poani, é a abstinência sexual de 15 dias antes de beber o caapi (bebida alucinógena similar à ayahuasca). "Quem obedece às regras tem mais poder, progride mais", afirma o professor sobre a sabedoria veiculada pelas "mirações" desencadeadas pela bebida. "[A gente vê] muita cobra colorida no vômito, entende a música e as palavras da cachoeira."

Seu orgulho é ter revertido o "êxodo rural", como se refere à saída de jovens para as antigas missões salesianas da região, Pari-Cachoeira e Taracuá, ou para a sede do município, São Gabriel da Cachoeira. A regra era abandonarem as aldeias em busca de educação.

São Pedro ficou reduzida a 14 famílias, em 2000. Hoje são 23. A língua tuiuca, antes à beira da extinção, agora é falada por todos, dentro e fora da sala de aula. Inclusive pelos alunos tucanos, desanas, yebamasãs, barás ou miriti-tapuias vindos de aldeias vizinhas para os módulos de 15 dias, intercalados com 15 dias passados na comunidade de origem, para trabalhar com os pais na roça e na pesca.

Os moços não precisam mais mudar-se para São Gabriel, 700 quilômetros rio abaixo, para cursar o ensino médio. A primeira turma do secundário da escola Utapinopona -"Filhos da Cobra de Pedra"- formou-se no ano passado, Marcos Resende entre eles (hoje dá aulas para a nova turma da escola comunitária).

Agora só lhes falta o reconhecimento de um diploma oficial. E já discutem como poderia ser um ensino superior indígena.

Alunos e professores de esnino médio da Escola Tuyuka Utapinopona,

na comunidade São Pedro (Alto Tiquié, AM) - Foto: Marcelo Leite

 


Leia a íntegra da reportagem "A exceção e a regra" no caderno Mais da Folha de S.Paulo (só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h49

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O Belo Monte de Lula

 
 

O Belo Monte de Lula

Eis a primeira pergunta e a correspondente resposta do presidente Lula em entrevista dada por escrito  ao jornal Diário do Pará, publicada hoje:


Jornalista: Belo Monte é vista como uma necessidade para o crescimento do país, mas vem gerando uma série de polêmicas, principalmente com índios, movimentos sociais, pesquisadores e MPF. Faltou o governo explicar melhor como será a obra e os benefícios e impactos que trará. O fato da AGU querer processar os procuradores do MPF-PA não seria uma prova de que o governo quer "enfiar" o projeto "goela abaixo", sem um debate construtivo? E alguns especialistas afirmam que se fossem feitos reparos na área de energia, que teria um desperdício de 15% pelo menos, não precisaríamos de Belo Monte. Como o senhor vê essas questões?

Presidente: Belo Monte não nasceu da noite para o dia. Os estudos sobre a hidrelétrica vêm sendo desenvolvidos há mais de 30 anos, com debates e discussões envolvendo os mais diferentes segmentos da sociedade. O resultado é que o projeto original foi profundamente alterado, no sentido de minimizar as interferências ambientais. Por exemplo, a área alagada pelo reservatório, que seria de 1225 km², foi reduzida para 516 km². É importante ressaltar que a usina vai gerar 18.600 empregos diretos e recursos anuais de R$ 121 milhões de ISS (durante a construção da usina) e de R$ 203 milhões de ICMS, após a implantação de todas as máquinas e durante todo o período de operação da usina. Os municípios com áreas afetadas pelo reservatório vão receber R$ 88 milhões por ano de compensação financeira e o Estado do Pará também receberá a mesma quantia anualmente. Além do mais, o consórcio vencedor vai investir na área nada menos que R$ 3,3 bilhões em obras de compensação ambiental e social e em ações de fomento ao desenvolvimento regional. Isso representa mais de 17% do valor total do empreendimento. Por todos os cuidados que estamos tendo, não existe a política de enfiar o projeto goela abaixo de ninguém. Foram realizadas, no período de 2007 a 2009, 12 consultas públicas e 10 oficinas com comunidades, 15 fóruns técnicos, sendo 4 em Belém, e reunião com gestores públicos da região do Xingu. Em complementação ao trabalho de comunicação, agentes de interação fizeram visitas a 5.328 famílias, 61 reuniões com 2.100 pessoas presentes e realizaram 10 palestras em escolas do ensino fundamental e médio, para cerca de 530 alunos. Finalmente, destaco as audiências públicas em 4 municípios. Em Altamira, nada menos que 6 mil participantes debateram o projeto, antes da emissão da Licença Prévia pelo IBAMA. Quanto à Advocacia-Geral da União (AGU), o órgão apenas advertiu funcionários, inclusive do Ministério Público, que poderiam responder por atos que excedessem suas atribuições legais. Da mesma forma que o MP adiantou que iria à Justiça, a AGU também poderia questionar seus atos na Justiça. Estamos falando de ações dentro dos marcos da legalidade. Portanto, não há qualquer imposição do projeto à sociedade. Finalmente, no planejamento energético, não se trata de optar por construir hidrelétricas ou evitar o desperdício. Tanto a construção de hidrelétricas, como Belo Monte, quanto o aumento da eficiência energética – ou redução do desperdício –, são considerados no plano de expansão de energia nacional, que prevê a obtenção de cerca de 60 mil MW nos próximos dez anos. O governo vem incentivando diversos programas e ações de eficiência, como, por exemplo, a substituição de lâmpadas incandescentes e de geladeiras e, mais recentemente, a introdução de painéis solares para aquecimento de água nas residências do programa Minha Casa, Minha Vida. Quero chamar a atenção, sobretudo dos críticos da usina, incluindo de outros países, para o fato de que, no Brasil, 74% da energia elétrica consumida provém da hidreletricidade, que é mais barata e muito menos poluente. Veja que no Japão, a hidreletricidade contribui com 8% e nos Estados Unidos, com apenas 7% – o restante, ou seja, a quase totalidade, é obtida com a queima de gás, óleo, carvão etc.


Note que o presidente não faz uma defesa das vantagens da usina de Belo Monte em particular (a não ser pelos supostos benefícios para o Pará e a região de Altamira), mas da hidreletricidade em geral. E não apresenta um argumento que seja para justificar a usina do ponto de vista socioambiental (a não ser pela redução do reservatório).

Nenhuma palavra sobre a diminuição da vazão nos 130 km da Volta Grande do Xingu e sobre sua secagem. Nenhuma palavra efeitos sobre a pesca artesanal e de sobrevivência. Nenhuma palavra sobre as dúvidas em torno da energia firme de Belo Monte e sua viabilidade técnico-financeira.

Escrito por Marcelo Leite às 10h13

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Antropólogos enlouqueceram, sugere filme

 
 

Antropólogos enlouqueceram, sugere filme

Índio ianomâmi entrevistado no filme de José Padilha
(Foto: Divulgação)

Leia abaixo trechos da crítica ao documentário "Sgredos da Tribo", de José Padilha, apresentado no festival É Tudo Verdade (a íntegra, só para assinantes da Folha e do UOL, você lê aqui).


As denúncias contidas no documentário de José Padilha -atrocidades que teriam sido cometidas por antropólogos contra os índios ianomâmis- não são novas, mas nem por isso menos relevantes. Foram noticiadas há quase dez anos, quando reacenderam a guerra ancestral entre os clãs da área, antropologia física contra antropologia cultural.

O detonador foi um livro do jornalista Patrick Tierney, "Trevas no Eldorado". Tierney aparece várias vezes no documentário, que segue o livro de perto. O mérito maior do filme está no testemunho direto de alguns dos denunciados, como os americanos Napoleon Chagnon (acusado de genocídio) e Kenneth Good (pedofilia).

Nas décadas de 1960 e 1970, nenhum antropólogo que tenha feito fama à custa dos ianomâmis parece ter agido com decência (para não mencionar ética de pesquisa). Cargas de machados e facões de aço lhes davam, nas aldeias, um poder descomunal que exerciam ao arbítrio de inclinações teóricas, ideológicas e sexuais. (...)

Jacques Lizot, francês repetidamente apresentado como protegido do grande antropólogo cultural Claude Lévi-Strauss (morto em outubro do ano passado), preferia meninos. Sua reputação é a que sai mais prejudicada do filme, pois se recusou a gravar testemunho. As cenas de ianomâmis ressentidos descrevendo o que fazia se destacam pela perversidade das práticas e dos testemunhos. (...)

Ao final do documentário, pouca coisa se salva da antropologia, de um lado e de outro. Faltou dizer que nem toda a disciplina se encontra nesse nível. Algumas imagens, aliás, sugerem o oposto. A câmera que percorre os corredores das reuniões de especialistas e exibe seus tantos livros carrega uma mensagem anti-intelectual: antropólogos estão dispostos a tudo por fama e poder.

Serão os únicos?


SEGREDOS DA TRIBO

Direção: José Padilha
Quando: hoje, às 17h, no Espaço Unibanco Augusta
Classificação: 14 anos
Avaliação: regular

Escrito por Marcelo Leite às 14h03

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Eduardo Giannaetti - 2

 
 

Eduardo Giannaetti - 2

Esta é a segunda parte da transcrição da entrevista com o economista próximo de Marina Silva:

Folha – Em setores próximos de Marina Silva, a sua aparição na pré-campanha foi rotulada como neoliberal e não muito bem vista. Isso pode criar dificuldades para essa colaboração?

Giannetti – Eu não sei o que essa rotulagem contribui para o debate. Como pessoa que passou boa parte da vida estudando escolas de pensamento, eu sei da dificuldade de carimbar posições. Exemplo: uma idéia tão cara ao PT quanto a renda cidadã é uma idéia de um economista tachado de liberal, Milton Friedman. Outro economista tachado de neoliberal como Hayek tem uma idéia ainda mais avançada, que é uma renda mínima para cada cidadão, independentemente de ele trabalhar ou não. As pessoas usam esses rótulos achando que estão dizendo alguma coisa, quando nem sabem o que estão dizendo.

Folha – Elas estão querendo dizer “tucano”.

Giannetti – Tucano seria social-democrata. Estou disposto a discutir qualquer tema nos termos do tema. Se quiser discutir bandeiras ideológicas, vamos lá, mas as pessoas estão usando esses rótulos sem saber o que estão falando. Tem neoliberalismo austríaco, tem neoliberalismo de Chicago, de Virgínia, tem o liberalismo clássico... Eu me identifico muito mais com os liberais clássicos, Adam Smith, John Stuart Mill, Marshall _que aliás foi quem trouxe o capital humano para a reflexão em economia. O Marshall dizia que o mais valioso entre os capitais era aquele investido em seres humanos. Isso no final do século 19. Outro exemplo: Eugenio Gudin. O reacionário, retrógrado, modelo agrário exportador... Alguém leu Gudin? Falava na centralidade da educação numa época em que a chamada esquerda no Brasil nem tocava nesse assunto. O Celso Furtado conseguiu escrever um livro inteiro sobre a formação econômica do Brasil sem falar em capital humano. É uma coisa espantosa, o Hamlet sem o príncipe dinamarquês. O Brasil precisa parar de apedrejar de linchar. O linchamento ideológico é uma prática retrógrada do debate brasileiro.

Folha – Como você enxerga coisas do governo Lula como PAC e pré-sal? O que precisaria mudar da perspectiva de uma candidatura com propostas ambientais?

Giannetti – Eu gostaria de ver o mesmo empenho que o governo Lula deu ao PAC dado ao capital humano. Embora o Brasil tenha problemas sérios de capital físico e infraestrutura, sem a menor dúvida, o grande desafio secular do Brasil,sempre foi a sua incapacidade e de formar capital humano. Há um desbalanceamento. No século 21 o capital humano é mais importante que capital físico, O Brasil nunca vai se tornar um país civilizado ou desenvolvido simplesmente porque descobriu petróleo ou fez uma nova usina hidrelétrica. Esse fetiche do capital físico é uma herança e um viés do processo de desenvolvimento brasileiro grave. Tanto o Juscelino quanto o regime militar compartilharam dessa percepção de que um país se torna moderno construindo seu capital físico, industrializando, urbanizando e eletrificando. Eu discordo disso, acho que um país se torna civilizado quando ele constrói a sua base de capital humano.

Folha – Mas é uma idéia ainda muito poderosa, que ainda domina o debate na área do PT e do PSDB.

Giannetti – Daí a promessa de que a Marina seja uma voz alternativa a isso. O hiato de atraso educacional brasileiro aumentou na última década, e não são só os alunos de ensino público, não. Se você comparar os alunos das escolas de elite do Brasil com seus pares, nós também ficamos atrás. O Pisa mostra. Gary Becker e Robert Fogel, economistas da Universidade de Chicago, fizeram estimativas da proporção de capital físico e capital humano na economia americana, hoje: do estoque total de capital, dois terços é humano.

Folha – Essa é uma conta complicada de fazer.

Giannetti – As contas que nós usamos em economia estão completamente anacrônicas. Se uma empresa constrói um galpão, isso conta como construção de capital fixo e entra nas contas nacionais como investimento. Se essa empresa gasta o mesmo recurso para treinar seus funcionários, isso é contabilizado como consumo, gasto corrente. Elas são também completamente anacrônicas em relação ao meio ambiente, é algo fundamental. Você compara o custo do quilowatt-hora de uma termelétrica a carvão com o custo de geração solar. É lógico que na tecnologia atual e na maneira que nós contabilizamos, a termelétrica é muito mais econômica e eficiente que a energia solar, mas e o custo do dióxido de carbono emitido? O sistema de preços é cego para isso. Se atribuir um preço, provavelmente vai mudar a relação. A maneira como nós registramos os fatos da economia está muito defasada em relação ao século 21, na questão do capital humano e do meio ambiente. Nós ficamos usando esses indicadores como se eles fossem tudo que importa. Tudo que aumenta o PIB é bom, tudo que aumenta a formação de capital fixo é bom, o PAC... No fundo o PAC é uma jogada parecida com o Bolsa Família, juntar muitos programas que já estavam andando numa única bandeira e criar um ícone. Eu digo que o PAC é um Plano de Abuso da Credulidade.

Folha – Mas a taxa de investimento não precisa aumentar?

Giannetti – O Brasil sem dúvida investe pouco. Num ano bom, a formação bruta de capital fixa é 18-19% do PIB. Na China é 40%. Nos Estados Unidos, no final do século 19, quando eles eram um país emergente, era 30%. O problema é que esse número é muito parcial, porque só pega o capital fixo. Se fosse um número completo, incluindo capital humano, o problema brasileiro ficaria ainda mais grave do que já é.

Folha – E o pré-sal?

Giannetti – Tenho muitas dúvidas técnicas sobre o pré-sal, nunca me aprofundei no assunto. Falo como observador. Dúvidas sobre custo de produção, sobre preço do barril quando o pré-sal se materializar. É uma economia suja. De uma coisa eu tenho certeza: nenhum país do mundo se resolveu como desenvolvimento por um achado lotérico de recursos naturais. Pelo contrário, isso pode se tornar uma maldição _veja a Venezuela. Pode levar ao descaso em relação ao que realmente conta, capital humano. O Japão não tem carvão, não tem petróleo, mas com indicadores de saúde, educação e civilização extremamente avançados. A Venezuela é um país com extraordinária dotação de recursos naturais, energia e água, e está racionando energia elétrica e está racionando água. E é politicamente retrógrada.

Folha – Em termos concretos, o que o Sr. propõe?

Giannetti – Não tenho uma proposta fechada. Mas o Brasil está querendo dar um passo maior que a pernas. Quer aumentar o investimento, o gasto das famílias e o gasto corrente do governo _tudo ao mesmo tempo. Essa conta não fecha. Se insistir, dois tipos de desequilíbrio começam a aparecer: pressão inflacionária e desequilíbrio nas contas externas. Se não quiser permitir que aflorem, vai ter de aumentar o juro, como tantas vezes foi feito no passado, inclusive no governo Lula: tirar o barril de chope quando a festa começa a ficar animada.

Folha – Qual seria alternativa para não chegar a esse ponto?

Giannetti – Nós vamos de enxugar o gasto do governo. E provavelmente pensar mais em crédito para formação de capital do que em crédito para o consumo das famílias. Vamos ter de aceitar algum sacrifício agora para melhorar o futuro.

Folha _ Essa seriam as duas prioridades de um eventual governo Marina Silva.

Giannetti – A interface entre o Estado e uma economia se dá em três dimensões. Tem a política macroeconômica, e aí sim amadureceu no Brasil um consenso razoavelmente robusto de que metas de inflação, com autonomia do BC, câmbio flutuante, com intervenções apenas para evitar excessos de volatilidade, e superávit primário para manter a dívida pública estável ou declinante _esse tripé da política econômica é uma conquista da sociedade brasileira. Espero muito que o governo não a altere. Uma das coisas que mais surpreendeu no governo Lula foi o respeito a esse tripé. Uma outra dimensão da relação Estado-economia, é o papel microeconômico: o Estado empresário, regulamentador, as legislações pertinentes aos diferentes mercados _aí me parece que a tendência ao longo do governo Lula foi no sentido do dirigismo e da estatização. A equipe do Palocci era muito mais respeitosa da economia de mercado e dos incentivos, do arcabouço regulador necessário para uma boa economia de mercado. Eu tendo a crer que uma eventual vitória da Dilma vai aprofundar o intervencionismo e o dirigismo estatal.
Se eu fosse eleger uma área na qual o Brasil precisa agir, nessa dimensão microeconômica, eu elegeria o mercado de trabalho. Eu não me conformo em viver num país em que dezenas de milhões de trabalhadores não têm uma situação regular de emprego. Isso envenena a vida brasileira. Reduz a produtividade, compromete as contas da Previdência, precariza a existência de famílias, que não têm nenhuma proteção de direitos trabalhistas. Tem alguma coisa de muito errado num país em que metade da população economicamente ativa não consegue ter uma situação normal de emprego. Nós somos campeões mundiais de ações trabalhistas. Nós temos encargos sobre a folha salarial que encarecem enormemente a contratação e reduzem o emprego formal. E nós temos uma das legislações trabalhistas mais anacrônicas e barrocas do planeta, se não a mais. O mercado de trabalho no Brasil ainda precisa chegar o século 21, no seu lado institucional.

Folha – Não são temas que apareçam no radar ou na agenda de Marina Silva, que tende a ser mais ambiental. Seria essa a sua contribuição, trazê-los à tona?

Giannetti – Se ela tem um projeto de governo na campanha eleitoral, tem de ter um quadro geral do país e propostas que contemple as questões pertinentes da vida brasileira, não pode ficar no gueto das questões ambientais.

Folha – Mas isso precisa ser também politicamente viável, para o público que ela já tem e para o público que precisa ganhar. Algumas dessas coisas tendem a ser rotuladas como neoliberais e a inviabilizar o discurso político.

Giannetti - Eu só peço que antes de rotular, vamos discutir o mérito da questão.

Folha – Existe uma boa probabilidade de que o debate eleitoral volte a ser prismado pela oposição entre estatismo e privatização. Haverá espaço para discutir as questões socioambientais?

Giannetti – Esse debate tem de ser feito de maneira mais inteligente. São três dimensões diferentes da relação Estado-economia: política macroeconômica, economia mista (papel microeconômico do Estado) e as política sociais (o papel distributivo). Cada uma dessa dimensões tem uma discussão diferente, não dá para ter uma visão genérica – mais Estado ou menos Estado. O Brasil precisa de um Estado forte, mas enxuto. O que nós temos hoje, para usar uma expressão do Sérgio Abranches, é um Leviatã anêmico. O Estado brasileiro faz muitas coisas que não deveria e deixa de fazer coisas que deveria. Vamos concentrar nas áreas em que o estado é importante.

Folha – Dê exemplos do que não deveria estar fazendo.

Giannetti – Criando empresas estatais em setores em que a experiência e a teoria econômica mostram que o Estado não é bom. O papel que o BNDES está assumindo é muito preocupante. O governo Lula descobriu em seu segundo mandato uma mágica perigosíssima: transferir recursos de dívida pública para concessão de empréstimos sem que isso entre no cálculo de superávit primário. E escolhendo por critérios nem sempre transparentes os parceiros do setor privado que vão receber as benesses desse crédito subsidiado.

Folha – E a carga tributária?

Giannetti – Nós temos um carga tributária bruta no Brasil de 36%, completamente fora da curva considerando nosso nível de renda. Países similares têm 20 a 25%. Temos um déficit nominal de 3%. Quarenta por cento da renda nacional transita pelo Estado brasileiro, é intermediada por ele. E a capacidade de investimento é pífia. Tudo somado, inclusive o PAC, chega a 2% do PIB. Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras. Os outros 16% são do setor privado, mas boa parte do setor privado é financiado pelo BNDES.

Folha – Essa questão da contribuição da natureza para a economia e da descarbonização que veio para ficar no pensamento econômico, ou é uma coisa passageira/

Giannetti – Se ela não for voluntariamente incorporada, ela vai se impor dolorosamente. A grande mudança é que um terço da população mundial, na China e na Índia, estão legitimamente pleiteando um padrões de consumo que o Ocidente sempre vendeu como o segredo da felicidade. Não é o segredo da felicidade e pode nos levar à autodestruição. Eu que admiro e aprecio muito o sistema de preços como mecanismo de alocação de recursos, reconheço que ele tem uma deficiência extraordinária: não reflete os custos reais de nossas ações de produção e consumo. Quando pego um avião para ir ao Rio de Janeiro eu provavelmente estou emitindo mais dióxido de carbono que um indiano do meio rural durante um mês.

Folha – Ou um ano.

Giannetti – E não estou pagando por isso. Todo mundo vai ter de pagar. Vamos ter de buscar uma maneira sensata de fazer isso. O sistema de preços vai ter de refletir não só o custo monetário, mas também o ambiental. Algumas coisas vão ficar relativamente mais baratas, e outras, mais caras.
O principal item da agenda mundial no século 21 é a mudança climática. Se isso não mudar o modo de se pensar o metabolismo entre natureza e sociedade, nenhuma outra força do universo o fará. A humanidade é um fumante inveterado, que fuma desde a Revolução Industrial, e que de repente recebe o diagnóstico de enfisema pulmonar. Ele tem duas opções: ou reduz drasticamente, e eventualmente elimina o vício, ou deixa o quadro se agravar até que chegue uma situação crítica em que uma solução dramática se impõe, a um custo muito maior _e o que é pior, sacrificando algo muito valioso que é a liberdade.
 

Escrito por Marcelo Leite às 18h26

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Tecnologia ianomâmi

 
 

Tecnologia ianomâmi

A casa coletiva da aldeia Watoriki (Reprodução/Foto: William Milliken)

A coluna (aqui, só para assinantes) Ciência em Dia de ontem, na Folha, trata de um belo livro, "Urihi A - A Terra-Floresta Yanomami", de onde foi extraída a foto acima. Infelizmente, deixei de levar em conta as respostas abaixo que me foram enviadas por um dos autores, Bruce Albert, pois elas só chegaram às minhas mãos na sexta-feira, quando a coluna já estava impressa.

Esta é uma das muitas vantagens de publicar um blog. Sempre é possível complementar o trabalho jornalístico "normal", por assim dizer, com material adicional para os leitores que quiserem ir além. Com a palavra, Albert:


Houve versão anterior do trabalho publicada em outra língua?

O livro é uma versão  reescrita, reorganizada e muito atualizada (dados de campo, análise da bibliografia) de um livro publicado em 1999 pela editora do Kew Botanical Gardens, cujo titulo era "Yanomami – A forest people" (inédito em português).

Você e Milliken são ambos antropólogos ou têm também formação em biologia/botânica?

Eu sou antropólogo, francês, com doutorado (1985) pela Université de Paris X Nanterre, diretor de pesquisa do IRD (Institut de recherche pour le développement) e pesquisador associado do ISA. Trabalho com os Yanomami desde 1975 e criei a CCPY em 1978 com a Claudia Andujar e o Carlo Zacquini.
William, inglês, é doutor em etnobotânica pela Universidade de Cambridge (1999) e chefe da Unidade de Botânica da América
Tropical nos Royal Botanic Gardens, Kew. Começou a trabalhar comigo nos Yanomami em 1993. Trabalhou também no Brasil com varios povos indigenas além dos Yanomami: Macuxi, Wapixana, Ye'kuana, Waimiri Atroari, Wai Wai, Ingariko.
 
Em poucos trechos do livro são usados nomes comuns das plantas. Na maioria das vezes aparecem só os nomes científicos e
Yanomami, o que dificulta a leitura por leigos como eu. Foi uma escolha deliberada?

Foi uma escolha deliberada sim, por varias razões:

  • muitas das plantas usadas pelos yanomami simplesmente não têm nome popular em português (aliás, algumas  vezes nem havia nome científico: uma foi nomeada com o nome da aldeia de Watoriki/Demini: Trichilia watorikensis – ver na página 36 a nota abaixo da tabela; outra é provavelmente uma nova espécie – ver fim da nota 63 p.46);
  • os nomes populares introduzem frequentemente mais confusão do que ajudam. Eles são, na maioria das vezes, muito vagos e frouxamente abrangentes, podendo se referir a várias espécies muito diferentes;
  • finalmente, é provável que os leitores das cidades ignorem a imensa maioria dos nomes populares das plantas da Amazônia, tanto quanto os nomes científicos.

Pensamos então que ficaria muito pesado no texto acrescentar esses nomes populares pouco confiáveis (quando disponíveis) sem muito ganho para os leitores. A ideia subjacente foi que os especialistas (botânicos, antropólogos, indigenistas etc.) possam se referir aos nomes científicos e yanomami enquanto as descrições e discussões do texto podem dar aos eventuais leitores não especialistas um apanhado geral da riqueza do conhecimento botânico dos Yanomami sem que eles tenham que conhecer cada planta mencionada. Quem quiser saber mais só precisa googlar os nomes científicos para conseguir fotos e bibliografia com muita precisão…
 

Se você tivesse de escolher dois usos de plantas por Yanomami que são muito característicos e incomuns, que divirjam do acervo geral de tecnologias amazônicas, quais seriam?

Tem várias coisas de destaque no conhecimento botanico yanomami:

  • por exemplo, sua considerável farmacopeia vegetal oriunda quase exclusivamente da floresta (o número de plantas medicinais que registram já coloca os yanomami entre os detentores das mais ricas farmacopeias da Amazônia indígena) -  215 plantas, ver p. 120;
  • pode ser também a excepcional diversidade dos seus venenos de pesca: ver pp. 69-73  e Tabela 7;
  • ou coisas mais curiosas como a importância dos cogumelos na sua dieta (mais de 20) ou seu consumo alimentar de flores como a da árvore na+hi - sobre tudo isso ver pp. 45-47.


Foi esse estudo que o levou para pesquisas no território Yanomami? E Milliken? Quando vocês chegaram lá e quanto tempo permaneceram?

No meu caso, não. Cheguei nos Yanomami no começo de 1975 para trabalhar num projeto da Universidade de Brasília-FUNAI destinado a proteger os Yanomami do impacto da Perimetral Norte (projeto dirigido pela Profa. Alcida Ramos, UnB). Portanto trabalho com os Yanomami no Brasil há 35 anos. Passei anos com eles e continuo trabalhando lá várias vezes ao ano com o ISA e a Hutukara Associaçao Yanomami.
Pedi em 1993 ao William para vir trabalhar comigo sobre a etnobotânica yanomami. Fizemos várias viagem de campo juntos nos
anos 1993-1995 e 2002 com uma duração  total de 3 ou 4 meses. Ver páginas 19 e 20. Mas obviamente estão atrás dessas pesquisas meus 30 anos de trabalho e amizade com os Yanomami.
 

Por que escolheu estudar a etnobotânica dos Yanomami? Para documentação de usos que possam depois ser (mal)apropriados por cientistas ou empresas não-índias, ou isso não teve peso na decisão?

Nossa pesquisas começaram no quadro de demandas da ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e seus projetos de campo (assistência em saúde e projetos ambientais) _ ver pp. 20-21.  Nos anos 1993-95 era um estudo para resgate de conhecimento de plantas medicinais, em 2002 um estudo sobre impacto do garimpo na TI [Terra Indígena] Yanomami. Finalmente decidimos  ampliar a pesquisa para dar um panorama dos conhecimentos botanicos yanomami a partir de nossos dados e da literatura sobre esse grupo. Como menciona a introdução do livro, os Yanomami são muito conhecidos por várias coisas: guerras e polêmicas a propósito da sociobiologia, seu xamanismo, sua vitimização pelo garimpo, as polêmicas do livro do Patrick Tierney e recente documentario de José Padilha etc., mas não por uma coisa muito óbvia: seu extraordinário conhecimento e uso da floresta  (ver na conclusão do livro por que este saber se destaca entre os povos da Amazônia pp 149-152). Mostrar isso nos pareceu uma maneira de contribuir para  reforçar as justificativas da preservação da TI Yanomami no seu formato atual (a CCPY, cujas atividades foram desde o ano passado assumidas pelo ISA, lutou de 1978 até 1992 para conseguir a homologação da TI Yanomami). Portanto, nosso trabalho sempre teve um cunho de engajamento em prol da causa yanomami.
 
Além disso, foram mencionadas no livro somente identificações de plantas já descritas e bem conhecidas na literatura
etnobotânica. Para as demais optamos por proteger os conhecimentos inéditos específicos aos Yanomami não mencionando seu nomes científicos no texto do livro: ver nota 196 p. 121. Essas espécies foram selecionadas por terem sido registradas e publicadas em outros estudos com as mesmas indicações medicinais atribuídas pelos Yanomami. Nomes de espécies cujas indicações medicinais parecem ser peculiares aos Yanomami foram suprimidos desta e de publicações anteriores, no intuito de minimizar o risco de violação dos seus direitos de propriedade intelectual (vide Milliken e Albert, 1996; 1997a).


Se boa parte da farmacopeia Yanomami é partilhada com vários outros povos indígenas da Amazônia, como ficaria a questão da propriedade intelectual e da repartição de benefícios em caso de isolar-se e sintetizar-se um princípio ativo de aplicação comercial? Quem deveria ser tomado como titular desse conhecimento tradicional gerador de valor?

Não sou um especialista nesse assunto e a ideia de mercantilização dos conhecimentos indígenas não me agrada muito de uma maneira geral. Boa parte das plantas usadas pelos yanomami é, como pode se imaginar, idêntica à de muitos outros povos indigenas da Amazônia. Só uma pequena parte é específica.

Finalmente, a problemática de royalties para uso de plantas medicinais comuns à maioria dos povos da Amazônia ou de algumas grandes regiões (patrimônio coletivo intelectual imemorial) é meio insolúvel, a não ser que esses royalties sejam atribuídos talvez a federações de associações que representam uma maioria dos povos da região ou de sub-regiões com uma porcentagem especial para o povo onde o trabalho de pesquisa  que desembocou na identificação da planta e do princípio ativo foi realizado (o povo "porta de entrada" do conhecimento coletivo enquanto conjunto de pesquisadores indígenas associados).

Mas, repito, não sou um especialista em questões legais nesse campo e isso é uma hipótese improvisada que deveria ser debatida em primeiro lugar com os povos indígenas.

Escrito por Marcelo Leite às 12h01

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Sementes da concórdia

 
 

Sementes da concórdia

Pausa na coleta de sementes de leiteiro perto da aldeia Moigu, dos icpengues
(Foto: Marcelo Leite)

(...) Só no dia seguinte seria possível acompanhar o trabalho das mulheres icpengues na coleta de sementes para a campanha Y Ikatu Xingu. O nome quer dizer "água boa e limpa do Xingu" em língua camaiurá, uma das 19 etnias presentes nos cerca de 500 mil km2 da bacia hidrográfica. As sementes recolhidas pelas mulheres serão vendidas para agricultores recuperarem matas ciliares -vegetação que protege os rios como cílios protegem os olhos- destruídas a centenas de quilômetros dali. Quando as florestas plantadas crescerem, talvez em duas décadas, ajudarão a proteger nascentes. Estas, por sua vez, manterão o Xingu fluindo, como sempre, a poucos metros das casas de troncos e palha de inajá da aldeia Moigu. (...)


Leia a reportagem completa sobre a campanha Y Ikatu Xingu no caderno Mais da Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).


Amanhecer no rio Xingu, junto ao posto Pavuru no Parque Indígena do Xingu
(Foto: Marcelo Leite)

Escrito por Marcelo Leite às 10h58

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Destruir para preservar

 
 

Destruir para preservar

O centro de treinamento Roberto Bauch fica em Paragominas, Pará, a 120 km da sede do município. Os que chegam à Fazenda Cauaxi para mais um curso de manejo florestal são recebidos com café e bolo. O pôster de motosserra na cozinha-refeitório vai direto ao ponto: a melhor maneira de salvar a floresta. (...)

O curso do IFT, que já teve 3.500 alunos, funciona por demonstrações práticas. Primeiro, visitam-se áreas de exploração convencional: estradas, pátios de estocagem e trilhas de arraste de toras abertos sem método nem planejamento; mateiros e motosserristas que trabalham sem se comunicar; tratores de construção civil sem adaptação adequada. (...)

Os aprendizes de desmatador seguem depois para áreas de exploração de impacto reduzido da empresa Cikel, que dá apoio logístico ao IFT. A extração é precedida, até um ano antes, de inventário que identifica e localiza cada árvore de 90 espécies com potencial comercial e diâmetro acima de 35 cm.

Grotas e igarapés são levados em conta no planejamento de estradas e trilhas, para evitar becos sem saída e erosão. Seu traçado vai sinalizado com fitas de plástico. Os operários saem a campo com um mapa de quais árvores serão cortadas, sempre a no máximo 250 m de uma estrada.

O arraste das toras se faz com um trator florestal articulado (“skidder”), com pneus em lugar de esteiras. Os estudantes têm o privilégio de pilotar a máquina de R$ 780 mil no labirinto de árvores. Depois, conferem o estrago.

Resultado: 5% da área danificada por tratores, contra 10% na extração convencional; área de solo exposta às intempéries reduzida a um décimo; corte de 75% na quantidade de toras abandonadas na mata por tratoristas incapazes de encontrá-las. Noves fora, uma atividade 19% mais rentável, mesmo levando em conta o alto custo inicial de fazer o inventário e investir em treinamento. (...)

O colunista viajou para Paragominas (PA) a convite do Serviço Florestal Brasileiro


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes) e assista mais vídeos (amadores...) sobre a exploração de impacto reduzido logo a seguir.

 

Escrito por Marcelo Leite às 15h23

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Estrangeiros na Amazônia e no Rio Grande

 
 

Estrangeiros na Amazônia e no Rio Grande

A manchete de hoje da Folha, "Projeto de lei limita venda de terra para estrangeiros", uma reportagem exclusiva de Eduardo Scolese, veio acompanhada de uma comentário deste blogueiro, "Medida nacionalista nasce com pernas curtas". Reproduzo o trecho final:


Faz sentido, de todo modo, melhorar e aumentar o controle do Estado sobre esse território estratégico. Limitar propriedades de estrangeiros a 10% da área dos municípios parece sensato, também, pois eles são gigantescos na Amazônia. O de Altamira, no Pará, se espalha por 160 mil km2 -mais do que cinco Bélgicas. Segundo o Incra, há hoje 36 mil km2 da Amazônia titulados para estrangeiros. Uma cifra subestimada, porque parcela desconhecida estaria nas mãos de laranjas. Mesmo assim, isso representa menos de 1% do bioma amazônico no Brasil. Ou pouco mais do que três anos de desmatamento, no ritmo atual de destruição. Resta saber se o governo federal vai conseguir extinguir, também no caso dos estrangeiros, a tão brasileira instituição dos testas de ferro.


A íntegra você lê aqui, se for assinante.

Por falta de espaço, deixei de incluir o adendo de que, como esclarece Scolese na reportagem, a aquisição de terras acima do limite de 10% de um município por um estrangeiro ficará dificultada, se aprovado o projeto de lei, mas não se torna impossível: ela ainda poderia ser autorizada pelo Congresso.

Coisa semelhante já existe na legislação atual para terras de gringos na faixa de 150 km da fronteira do país - depende de autorização do Conselho de Defesa Nacional (CDN), órgão de consulta da Presidência da República.

Há 11 dias li no jornal Valor Econômico uma reportagem (aqui, para assinantes) reveladora de André Vieira: "Stora Enso obtém aval para regularização de terras no RS". A maior fabricante européia de papel adquiriu em terras gaúchas 457 km², como parte do plano de chegar a mil km² para neles plantar eucaliptos e produzir celulose.

O problema é que as terras ficavam a menos de 150 km da fronteira, e a Stora Enso não conseguiu a escritura no cartório. Informa Vieira: "Para evitar que houvesse problemas de posse numa eventual invasão de terras, a Stora Enso colocou as propriedades nas mãos da Azenglever Agropecuária, uma empresa cujos sócios, brasileiros natos, eram executivos da própria empresa. À época, ambientalistas acusaram a empresa de driblar a lei. O Ministério Público gaúcho investigou o caso, mas a Justiça arquivou a ação. Chegou-se a discutir até a mudança da lei, reduzindo-se a distância até a fronteira."

Nada disso será mais necessário, com a ajuda do CDN, em decisão assinada pelo ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Jorge Armando Félix. Como se vê, nacionalismo também tem limites.

Escrito por Marcelo Leite às 09h33

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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