Aos poucos parece que o caso do suposto plágio em artigo com co-autoria da atual reitora da USP, Suely Vilela (leia aqui e aqui), vai deixando a questão localizada do plágio para suscitar uma discussão mais ampla das duvidosas práticas de autoria de artigos científicos.
É a coisa certa a fazer - ampliar o diagnóstico. É opinião corrente nos meios acadêmicos e intelectuais que a pressão por publicações, a organização semi-industrial da pesquisa científica e a competição entre periódicos acadêmicos estão conduzindo a um relaxamento ético no setor, com aumento da frequência de fraudes, manipulações e deslizes.
O jornalismo científico investigativo precisa se debruçar sobre o fenômeno, se os próprios filtros acadêmicos não estão dando conta de separar o joio do trigo - ou publicando o joio, como diz a boutade de H.L. Mencken. É a fé pública da ciência que está em jogo.
Recebi de um leitor, que pede para manter sua identidade oculta (o que me parece justificável no caso), algumas observações sobre fatos colhidos nos currículos Lattes de envolvidos no caso. Eles sugerem que pode haver algo de anormal na produtividade e nos costumes do grupo que produziu a pesquisa ora sob sindicância:
Carolina Dalaqua Sant´Ana defendeu o doutorado em 2008. Segundo o Lattes de seu orientador, os membros da banca eram: FONTES, M R M; RODRIGUES, V. M.; ALBUQUERQUE, S; dos Santos. A.C.; SOARES, A. M. Dois desses membros da banca são também co-autores de Carolina em artigos publicados em 2008 e 2007 (e 2006, e 2005). Um dos membros da banca é co-autor do artigo com o suposto plágio. Papers de 2005, supõe-se, já poderiam fazer parte de seu doutorado. Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?
Os pesquisadores-colaboradores-participantes da banca da Carolina são M.R.M Fontes (físico que agora estuda toxinas) e o biólogo Sergio Albuquerque (especialista em tripanossoma, organismo supostamente retratado na foto sob suspeita). Todos livre-docentes da USP, pesquisadores de primeiro escalão do CNPq.
O orientador de doutorado Andreimar Soares e a orientadora de mestrado Suely Vilela estão presentes na maior parte desses artigos. É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês.
Eis a legenda, em inglês, da figura em questão (acima):
Fig. 3. Transmission electron microscope of parasites treated with Bothrops jararaca LAAO. Trypanosoma cruzi epimastigote forms were incubated for 24 h with 5 and 15 μg/ml of BjarLAAO-I. (A) untreated parasite showing kinetoplast (k) and nucleus (n); (B) treated parasite with 5 μg/ml of BjarLAAO-I exhibiting kinetoplast disorganization. Note the gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins. (C) Parasites completely destroyed after treatment with 15 μg/ml of BjarLAAO-I. Transmission electron microscopy of Leishmania amazonensis promastigotes cultivated in untreated (D) and treated medium with BjarLAAO-I (E). Promastigotes treated for 24 h with enzyme (5 μg/ml) showing alterations in the flagella or nucleus (arrows). Bars = 0.5–1.0 μm. These data are representative of three experiments.
Fogo em pilha de madeira no pasto visto da Fazenda Bang Bang, em São José
do Xingu (MT), "um lugar de paz" (Foto: Ayrton Vignola Jr.)
A Folha de hoje traz reportagem sobre carta de proprietários de Mato Grosso, na maioria, que estão fartos do vaivém da bancada ruralista e do governador Blairo Maggi. Abaixo, alguns parágrafos da matéria (leia texto completo aqui, só para assinantes do jornal ou do UOL):
Um grupo de 35 fazendeiros ligados à organização não-governamental Aliança da Terra lançou ontem carta aberta defendendo a manutenção e a consolidação do Código Florestal, com "alguns ajustes". A manifestação evidencia que nem todos os produtores agropecuários do país rezam pela cartilha da bancada ruralista no Congresso Nacional. (...)
Mesmo pecuaristas do porte de Luiz Carlos Nunes Castelo, dono de 13 mil hectares no município de São José do Xingu (nordeste de Mato Grosso), assinaram o documento da Aliança. "O Código Florestal representa uma das mais importantes ferramentas para viabilizar a produção sustentável com responsabilidade socioambiental", defende a carta.
O principal ajuste proposto é incluir áreas de preservação permanente (como beiras de rio e topos de morros) no cálculo da reserva legal. A redução da reserva a 50% na Amazônia ficaria condicionada à previsão do zoneamento econômico-ecológico em cada Estado. (...)
Não consegui encontrar no site da USP a nota da reitora Suely Vilela sobre o caso de plágio de artigo científico em que aparece como co-autora, segundo reportagem (aqui, só para assinantes) de Eduardo Geraque na Folha de hoje. O que li no "outro lado" publicado pelo jornal não chega a ser esclarecedor.
Parece provável que a reitora não tenha tido participação direta no suposto plágio. Mas isso quer dizer que não tenha responsabilidade? Não é de hoje que se discute na comunidade acadêmica como é frouxa a noção de autoria em artigos científicos, certamente uma deterioração ética induzida pela pressão por produtividade.
A reitora quer distanciar-se de Carolina D. Sant'Ana, a autora da tese de doutorado que virou artigo do periódico Biochemical Pharmacology agora posto em questão. Segundo a Folha, a nota de Vilela afirma: "Minha colaboração com o docente [Andreimar Martins Soares, orientador de Sant'Ana] é na área de isolamento e purificação de toxinas animais, matéria distinta em relação às passagens e imagens questionadas."
Fiquei curioso em saber se Vilela vai mencionar em alguma nota que foi orientadora do mestrado defendido por Sant'Ana em 2005, como se pode verificar em seu currículo Lattes. Ali também se podem contar mais de 30 trabalhos da pesquisadora em que Suely Vilela aparece como co-autora, a maioria de 2004 a 2008, quando já era pró-reitora e reitora.
Seria interessante se a reitora também esclarecesse qual foi exatamente sua participação no artigo em tela e nas outras dezenas (vários periódicos já exigem dos autores que detalhem quem fez o quê). Se não o fizer, deixará no ar a suspeita que tenha melhorado seus índices de produtividade por meio do que se chama eufemisticamente de "autoria honorária". Uma enganação, incompatível com a ética acadêmica, que proíbe levar crédito pelo trabalho alheio.
Adendo às 19h30: Graças ao leitor Roberto Takata, descubro que a nota da reitoria pode ser lida aqui, tendo sido divulgada às 16h20 de hoje. Leia e diga se esclarece alguma coisa.
Como o bonde da foto, acordo de Copenhague pode virar peça de museu
Escrevi um texto curto de análise, na Folha de hoje, para comentar o adiamento do anúncio da meta brasileira de corte de emissões de gases do efeito estufa, se é que ainda haverá uma. Leia alguns trechos:
É mais comum o governo Lula perder uma boa oportunidade de calar. Ontem ele deixou passar em branco uma chance de falar -e dizer a que veio, em matéria de aquecimento global e liderança mundial.
O acordo de Copenhague, que deveria ser fechado em dezembro para substituir o Protocolo de Kyoto a partir de 2012, está à beira do abismo. A última rodada de negociação, em Barcelona, vai de mal a pior. (...)
Era o momento adequado para Lula demonstrar a liderança inovadora que lhe atribuem no estrangeiro. Mesmo que não anunciasse os 40% de redução de emissões de gases do efeito estufa almejados por seu ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, qualquer cifra acima dos 20% garantidos pela trajetória atual de redução do desmatamento já ajudaria a aliviar a atmosfera.
A decisão fica adiada até 13 de novembro, quando faltarão 22 dias para Copenhague. O Brasil segue o exemplo dos EUA, que não conseguem fechar uma posição por dificuldades políticas domésticas. A diferença é que lá se trata de uma dissensão no Legislativo, não no Executivo. (...)
O Brasil pode, sim, contribuir para desatar o nó de Copenhague. Só depende de Lula.
Como autor de um livro intitulado Promessas do Genoma (Editora da Unesp, 2007), tenho a satisfação de recomendar a leitura do ensaio "Promessas, promessas", de Stuart Blackman, na revista The Scientist.
Traduzo, como aperitivo, um pequeno trecho:
Nos seus momentos mais entusiasmados, a ciência sempre esteve inclinada a prometer mais, e mais cedo, do que conseguiu entregar. Por vezes dá a sensação de que as curas para as doenças estão sempre dez anos à frente, enquanto a fusão nuclear parece já há meio século a 50 anos de se tornar uma realidade prática. Pode ser fácil olhar para trás e rir da alegação de que a eugenia traria o fim não só da doenças hereditárias, mas também de problemas sociais como vadiagem e crimes, mas a alegação de um editorial do periódico científico Science de 1989 [D.E. Koshland, Jr., “Sequences and Consequences of the Human Genome,” Science, 246(4927)], na rampa de lançamento do Projeto Genoma Humano, de que a nova genética poderia ajudar a reduzir o problema dos sem-teto dando conta da doença mental, se mostra talvez recente o bastante para fazer os artelhos dos biólogos se curvarem de constrangimento.
(...) Pobre de quem nunca caminhou pela mata atlântica nem teve o privilégio de ver um tiê-sangue traçar um risco de fogo no ar, com suas penas. Poderá ter conhecido as sequoias da Califórnia, a Floresta Negra da Alemanha ou até a floresta amazônica, mas seu conceito de floresta sairá empobrecido. Nenhuma floresta deveria morrer, ao menos não de morte matada.
A mata atlântica, contudo, continua correndo risco de vida (alguém precisa preservar esta locução sob ameaça de extinção, sob pressão do predador "risco de morte"). Resta menos de 8% de seu 1,3 milhão de quilômetros quadrados (km2) originais, cerca de um sétimo do território brasileiro atual.
Entre 2005 e 2008, mais mil km2 caíram, uma área equivalente a dois terços do município de São Paulo. O bioma é monitorado há décadas pela organização não-governamental SOS Mata Atlântica. O resultado pode ser visualizado neste mapa: http://mapas.sosma.org.br. Cuidado para não se deprimir muito.
O mapa mostra certas coisas curiosas. Uma das maiores concentrações de remanescentes de mata atlântica está em São Paulo. Justamente o Estado mais desenvolvido, mais populoso e mais associado com sua destruição, para ceder lugar ao café e depois à cana-de-açúcar.
São 25.359 km2, ou 15% da cobertura original. (...) Ainda dá para matar as saudades -se a mata não morrer antes.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo, aqui (só para assinantes).
Escrevi um comentário (aqui, só para assinantes da Folha ou do UOL) sobre o papel do ministro Carlos Minc que foi publicado ontem. Transcrevo os dois primeiros e o último parágrafo:
NUM GOVERNO mais dado às metáforas do futebol que às do basquete, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, exerce as funções de pivô. Nem sempre suas jogadas espalhafatosas pelo centro da quadra resultam em pontos, mas ele ao menos sua o colete na posição de articulador abandonada por Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, mais ocupada com seu próprio PAC (programa de avanço da candidatura).
Minc parece ser o único ministro na Esplanada ocupado em fazer o governo sair da defesa e da troca de passes em duas partidas decisivas para o desenvolvimento econômico e a imagem internacional do Brasil: Código Florestal e aquecimento global. Uma depende do resultado da outra. Lula é aguardado como herói em Copenhague, mas sairá de lá vaiado se tropeçar na primeira ou empatar na segunda. (...)
Minc luta às claras por metas ambiciosas. Com isso, faz mais inimigos no governo, do Itamaraty ao Ministério da Ciência e Tecnologia, adeptos da retranca nas negociações internacionais sobre mudança climática. Sem um jogador encrenqueiro como ele no meio de campo, o governo Lula só poderia contar com a repescagem no campeonato mundial do desenvolvimento limpo.
Recebi de uma amiga o seguinte comunicado, que reproduzo:
Jornalistas de todo o país estão convidados a participar de enquete que dará subsídios para criar nova agência brasileira de notícias sobre temas de ciência e tecnologia.
A pesquisa, lançada esta semana pelo Museu da Vida – ligado à Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) – tem como objetivo compreender o papel desempenhado por dois serviços internacionais de notícias na produção de matérias jornalísticas em ciência e tecnologia no país.
Com perguntas sobre como os jornalistas brasileiros se usam os serviços do EurekAlert e do AlphaGalileo, o questionário on line busca identificar quais as principais qualidades e limitações desses agentes de notícias.
Segundo a diretora do Museu da Vida, Luisa Massarani, “as respostas ajudarão a elaborar projeto de uma Agência de Notícias na WEB orientada a divulgar a produção científica e tecnológica brasileira produzida nas universidades e nos centros de pesquisa nacionais”.
Faltam 42 dias para a conferência de Copenhague, na Dinamarca, e a previsão do clima não é das melhores. Tudo indica que resultará em fracasso. Como em Poznan, Polônia, há um ano. Como em Bali, Indonésia, há dois anos. Como em Kyoto, Japão, há 12 anos. (...)
Países ricos e pobres se engalfinham para empurrar a conta uns aos outros. Partem do princípio de que reduzir emissões prejudica a economia. Estão certos no curto prazo e provavelmente errados no longo, porque nenhuma economia sobrevive sem os insumos que a natureza lhe fornece de graça: chuvas no período certo, rios regulares, insetos polinizadores, vegetais para segurar a erosão etc. (...)
O Protocolo de Kyoto, adotado em 1997, previa uma redução modesta das emissões, e por esforço só de países mais ricos: 5,2% de corte, em média, até 2012, sobre os níveis de 1990. Até 2007, só 3,9% haviam sido obtidos -mesmo assim, porque a economia do Leste Europeu foi para o saco.
Em "kyotês", essas "economias em transição" viram suas emissões recuarem 37% entre 1990 e 2007. O resto avançou 11,2%, mais que o dobro do que deveriam reduzir. Os EUA, que nunca ratificaram Kyoto, progrediram 16,8%. Fizeram bonito só nações europeias como a Alemanha (-21,3%). (...)
Não há nem esboço de acordo, a 42 dias de Copenhague. (...)
Não é por outra razão que alguns militantes ambientalistas já se movimentam para organizar uma nova cúpula do ambiente, como a Eco-92 realizada no Rio. (...) Quem só pensa em Rio 2014 e Rio 2016 deveria começar a batalhar também pelo Rio 2012.
A revista No Coração da Antártida, publicada em 22/3/2009 pela Folha de S.Paulo, que tive o prazer de escrever e editar na companhia de Claudio Angelo, Marilia Scalzo e um bando de gente competente, foi escolhida como finalista de um das categorias do Prêmio Esso de Jornalismo:
FINALISTAS AO PRÊMIO ESSO DE INFORMAÇÃO CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E ECOLÓGICA
Marcelo Leite, Toni Pires, Claudio Ângelo, Marília Scalzo, Marcelo Pliger, Thea Severino, Adriana Caccese de Matos, Renata Steffen e Flávio Dieguez, com o trabalho NO CORAÇÃO DA ANTÁRTIDA, publicado no jornal FOLHA DE S. PAULO.
Marques Casara, André Campos, Carlos Juliano Barros, Dauro Veras, Leonardo Sakamoto, Paola Bello e Sérgio Vignes, com o trabalho QUEM SE BENEFICIA COM A DEVASTAÇÃO DA AMAZÔNIA, publicado na revista OBSERVATÓRIO SOCIAL EM REVISTA (São Paulo).
Júlia Kacowicz, com o trabalho O HOMEM E O MAR, publicado no jornal DIÁRIO DE PERNAMBUCO (Recife).
Os vencedores deste ano serão conhecidos no próximo dia 8 de dezembro, durante cerimônia de premiação a ser realizada no Hotel Copacabana Palace, no Rio.
Mais informações sobre a viagem que Toni Pires e eu fizemos ao continente gelado aqui.
Este blog andou meio largado, por força de uma viagem - mas mesmo assim me desculpo, o leitor não tem nada a ver com isso.
Começo pondo as coisas em dia com a pequena polêmica que me opôs a Demétrio Magnoli, a propósito de seu livro Uma gota de sangue. Escrevi em 26 de setembro uma resenha que terminava assim:
Não se busque neste livro de combate a propalada generosidade da mestiçagem. Para Magnoli, políticas racialistas ressuscitam o racismo e, em essência, não diferem das políticas do nazismo e do apartheid. Pouco importa se de um lado está o sujeito do preconceito e, de outro, seu objeto -a crença em raças os irmana.
Não há e não pode haver aperfeiçoamento das ações afirmativas. Aos pardos e pretos pobres de hoje, no Brasil, sob o fardo extra de descender mais obviamente de escravos, resta a esperança de que um dia a nação brasileira cumpra a promessa de dar oportunidades iguais para todos -seja em que geração for.
Magnoli não gostou, entre outras coisas, provavelmente, porque avaliei a obra como "regular". Replicou em 10 de outubro com o texto "Resenha expôs leitura apressada da obra", que começa assim:
Resenhar livros dá trabalho. Demanda um tempo desproporcional ao que se paga pela resenha, especialmente no caso inconveniente de livros extensos. Marcelo Leite não é o único a resolver o problema saltando a leitura da maior parte do livro. Mas, ao empregar o "método" na resenha publicada na Ilustrada (26/9) de meu "Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial", falseou o argumento central da obra. Leite quer que o leitor faça como ele, economizando tempo e reflexão. Ele decreta que o livro é "um texto de intervenção no debate brasileiro sobre cotas raciais" e sugere que se salte tudo que não incide diretamente sobre o Brasil, como as "partes três e quatro, por exemplo".
Começa mal e termina pior, acusando-me de desonestidade intelectual. É seu direito (e por isso dou aqui acesso ao que escreveu, para que o leitor forme a própria opinião). É também uma boa maneira de ficar falando sozinho.
O centro de treinamento Roberto Bauch fica em Paragominas, Pará, a 120 km da sede do município. Os que chegam à Fazenda Cauaxi para mais um curso de manejo florestal são recebidos com café e bolo. O pôster de motosserra na cozinha-refeitório vai direto ao ponto: a melhor maneira de salvar a floresta. (...)
O curso do IFT, que já teve 3.500 alunos, funciona por demonstrações práticas. Primeiro, visitam-se áreas de exploração convencional: estradas, pátios de estocagem e trilhas de arraste de toras abertos sem método nem planejamento; mateiros e motosserristas que trabalham sem se comunicar; tratores de construção civil sem adaptação adequada. (...)
Os aprendizes de desmatador seguem depois para áreas de exploração de impacto reduzido da empresa Cikel, que dá apoio logístico ao IFT. A extração é precedida, até um ano antes, de inventário que identifica e localiza cada árvore de 90 espécies com potencial comercial e diâmetro acima de 35 cm.
Grotas e igarapés são levados em conta no planejamento de estradas e trilhas, para evitar becos sem saída e erosão. Seu traçado vai sinalizado com fitas de plástico. Os operários saem a campo com um mapa de quais árvores serão cortadas, sempre a no máximo 250 m de uma estrada.
O arraste das toras se faz com um trator florestal articulado (“skidder”), com pneus em lugar de esteiras. Os estudantes têm o privilégio de pilotar a máquina de R$ 780 mil no labirinto de árvores. Depois, conferem o estrago.
Resultado: 5% da área danificada por tratores, contra 10% na extração convencional; área de solo exposta às intempéries reduzida a um décimo; corte de 75% na quantidade de toras abandonadas na mata por tratoristas incapazes de encontrá-las. Noves fora, uma atividade 19% mais rentável, mesmo levando em conta o alto custo inicial de fazer o inventário e investir em treinamento. (...)
O colunista viajou para Paragominas (PA) a convite do Serviço Florestal Brasileiro
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes) e assista mais vídeos (amadores...) sobre a exploração de impacto reduzido logo a seguir.
Simões com motos da Expedição Deserto de Cristal, na Antártida
Se você tem interesse ou curiosidade em saber mais sobre o Ártico e a Antártida, não deixe de comparecer quarta-feira pela manhã (09:00-11:00) ao evento Polar-Palooza, no Instituto de Oceanográfica da USP, Cidade Universitária. Lá você poderá conhecer pessoalmente Jefferson Cardia Simões, o gaúcho (foto) que liderou a expedição Deserto de Cristal, da qual participei em dezembro-janeiro passados (leia mais aqui).
Adendo para cariocas e fluminenses: O Polar-Palooza se repete na Cidade Maravilhosa, quiçá olímpica.
Sexta-feira (02/10) 09:00 às 11:00 - Casa da Ciência no Rio de Janeiro, Rua Lauro Miller, 3 - Botafogo
Sexta-feira (02/10) 14:00-17:00 - Teatro Solar Meninos de Luz, Rua Saint Roman, 149, Copacabana
Além de Simões, o evento conta com a presença de outros pesquisadores polares brasileiros e estrangeiros. Reproduzo abaixo parte do comunicado que recebi sobre o evento:
Os polos da Terra são as mais frias, mais distantes e as mais inexploradas regiões do planeta. O que acontece lá afeta o tempo e o clima em todos os lugares, até em países tropicais como o Brasil, perto do equador e geograficamente distante dos pólos Norte e Sul. Hoje, o Ártico e a Antártida mudam mais rapidamente do que qualquer outro lugar da Terra, e suas alterações afetam todos nós, tanto agora como no futuro. Explorar os polos continua a ser uma grande aventura, apesar dos ganhos tecnológicos do século 21.
Durante os últimos dois anos, 50.000 pesquisadores de mais de 60 nações exploraram os pólos como parte do 4º Ano Polar Internacional. Eles estudaram pingüins e ursos polares, geleiras e o oceano Antártico. Usando satélites e robôs subaquáticos, descobriram coisas incríveis: águas polares podem ser mais ricas em biodiversidade do que as caribenhas, e novas espécies podem ser encontradas onde quer que você olhe!
Agora os pólos vêm a São Paulo. Pesquisadores brasileiros se juntam a cientistas americanos para compartilhar histórias do Norte e do Sul, e novas descobertas surpreendentes. O especial na apresentação - para jovens e idosos, especialistas e público em geral - são as suas histórias pessoais, usando vídeos de alta definição e artefatos autênticos, tais como as roupas usadas para se proteger contra o frio polar.
Apresentadores:
Glaciologista Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, líder da expedição Deserto de Cristal" a primeira missão brasileira no interior do continente congelado;
Bióloga-marinha Lucia Siqueira Campos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderou algumas das incríveis viagens de descoberta que fazem parte do “Censo da Vida Marinha Antártica” latino-americano (LA CAML).
Visitantes dos Estados Unidos:
Geóloga Kathy Licht, estuda rochas glaciais para compreender o manto de gelo antártico;
Ornitólogo George Divoky – recém-chegado de perigosos encontros com os ursos polares em Cooper Island, Alasca;
Glaciologista Sridhar Anandakrishnan, cujo trabalho atual consiste em estudar os gigantescos mantos de gelo da Groenlândia e na Antártica.
Essa equipe exibirá vídeos de alta definição de suas aventuras e explicará por que os pólos têm importância para o Brasil. Haverá tempo suficiente para perguntas e respostas, em uma oportunidade única de interagir com alguns dos exploradores dos maiores extremos da Terra.
2009 é o 50º aniversário do Tratado da Antártida, um marco do acordo internacional que tem preservado a Antártida para a investigação científica pacífica.
POLAR-Palooza Brasil é possibilitada pelo apoio do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS e da Fundação Nacional pela Ciência dos Estados Unidos (NSF).
Não pretendia voltar ao tema da quase candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo PV. Persiste, porém, a questão sobre a defesa do ensino do criacionismo em todas as escolas que teria sido feita pela ex-ministra do Meio Ambiente. Defendeu ou não?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que Marina Silva de fato não defendeu na entrevista o ensino do criacionismo, em pé de igualdade, com o ensino da evolução darwiniana. Não literalmente, nem em todas as escolas. (...)
[O]utras respostas na entrevista explicitam que Marina Silva não subscreve a separação entre ciência e religião consagrada como base da educação leiga e republicana.
"No espaço de fé, a ciência tem todo o acolhimento. Gostaria muito que no espaço científico existisse o acolhimento para a fé que a fé dá para a ciência", disse. Não há acolhimento possível da fé pela ciência, se por isso entende-se a admissão de que existam verdades além e acima das corroboradas com observações e medidas. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes). Ou assista ao vídeo todo (quase 12 minutos) da entrevista:
Entrevista com a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva from Matheus Siqueira on Vimeo.
A Ilustrada de ontem, (sábado) trouxe resenha minha do livro de Demétrio Magnoli, Uma gota de sangue - História do pensamento racial. Leia os dois primeiros e os dois últimos parágrafos abaixo, ou então leia a íntegra aqui (se for assinante da Folha ou do UOL):
Não se iluda o leitor com o título da obra. O livro do geógrafo e colunista Demétrio Magnoli não é um compêndio. Trata-se de um texto de intervenção no debate brasileiro sobre cotas raciais.
Seu mérito maior é ter muito menos defeitos que o best-seller "Nós Não Somos Racistas", do jornalista Ali Kamel. A tese é a mesma: as ações afirmativas e o movimento negro resultam de uma armação ideológica. Ela conspira contra o princípio da igualdade perante a lei, contra a ideia de nação e, no caso brasileiro, contra seu generoso mito fundacional, a mestiçagem. (...)
Não se busque neste livro de combate a propalada generosidade da mestiçagem. Para Magnoli, políticas racialistas ressuscitam o racismo e, em essência, não diferem das políticas do nazismo e do apartheid. Pouco importa se de um lado está o sujeito do preconceito e, de outro, seu objeto -a crença em raças os irmana.
Não há e não pode haver aperfeiçoamento das ações afirmativas. Aos pardos e pretos pobres de hoje, no Brasil, sob o fardo extra de descender mais obviamente de escravos, resta a esperança de que um dia a nação brasileira cumpra a promessa de dar oportunidades iguais para todos -seja em que geração for.
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