Ciência em dia
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O alcance ruralista - 2

 
 

O alcance ruralista - 2

Recebi de Gilberto Câmara, da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) as seguintes observações sobre a coluna intitulada "O alcance ruralista" (veja nota a respeito aqui):


Com relação à comparação entre os dados de desmatamento do INPE e o relatorio "Alcance Territorial da Legislação Ambiental", feito pela EMBRAPA Monitoramento por Satélite, esclareço que:

1. Os dados do INPE foram validados pela comunidade científica. A metodologia do INPE está publicada em revista de prestígio, e dezenas de trabalhos na literatura científica usam nossos dados, inclusive papers
publicados em "Science", "Nature", e "Proceedings of the National Academy of Sciences".

2. Os mapas de desmatamento da Amazônia feitos pelo INPE estão disponíveis de forma aberta na Internet, permitindo comprovação e validação independente.

3. O relatório da EMBRAPA Monitoramento por Satélite ainda não foi validado pela comunidade científica. Os mapas associados também não estão disponíveis na Internet, o que impede sua validação pelos pares.

4. Não se pode desqualificar o relatório da EMBRAPA Monitoramento por Satélite por não ter sido revisado pelos pares. Isto seria injusto e apressado, pois a EMBRAPA é uma instituição séria. Naturalmente, é
desejável que a avaliação do relatório por pares científicos aconteça, pois se trata de tema de grande impacto nacional.

5. O INPE foi convidado a contribuir no debate sobre a legislação ambiental pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara. Estamos atualmente estudando a melhor forma de atuar, pois
queremos agregar nossa competência sem duplicar nem conflitar com o trabalho feito pela EMBRAPA.


Agradeço a manifestação do Inpe e faço votos de que seu envolvimento no debate contribua para esclarecer uma questão que, para o bem do Brasil, não pode pode ficar prisioneira de uma polarização ideologizada ("ambientalistas" X "ruralistas"), pois há base factual (dados, medidas) para fazê-la avançar.

Escrito por Marcelo Leite às 18h23

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Nobel recomenda “paixão” a jovens cientistas

 
 

Nobel recomenda “paixão” a jovens cientistas

 

Foi refrescante ouvir a palestra do suíço Richard Ernst na 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau, sul da Alemanha. Depois de uma abertura bem oficial na tarde de ontem (domingo), com três ministros de Ciência/Educação (Alemanha, China e Índia) mais o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Barroso, Ernst balançou o coreto propondo na manhã de hoje (segunda) uma viagem científico-artística ao Tibete.

O encontro em Lindau se realiza desde 1951 em Lindau por iniciativa do conde Lennart Bernadotte (1909-2004), mecenas que desejava fazer algo pela reconciliação internacional após a Segunda Guerra e enxergou na ciência natural um caminho. Neste ano a reunião conta com 23 laureados e tem por tema central a mudança climática global.

“Ernst”, em alemão, quer dizer sério, austero. O Nobel de Química em 1991, por sua contribuição ao método da ressonância nuclear magnética, começou porém dizendo aos 580 jovens pesquisadores da platéia à margem do lago de Constança que sua palestra – “Paixões e Atividades além da Ciência” – se concentraria no “além”. Eles assistem a conferências abertas pela manhã e se encontram a portas fechadas com os bãbãbãs à tarde, sem a presença de jornalistas.

Bem a calhar. No dia anterior, cinco jovens selecionados para representar os outros 575 no palco, participando de uma mesa-redonda com Barroso, haviam dado um show de convencionalismo e respostas ensaiadas. Pareciam recitar respostas decoradas, como naqueles concursos de debate americanos. Só o ganês Kwaku Kyeremeh e o alemão Elias Puchner fugiram um pouco do script carreirista, mencionando coisas como penúria e burocracia.

Os jovens de 67 países participam até sexta-feira das palestras públicas e dos encontros fechados com os luminares. Sandra Zanotto, da Universidade do Estado do Amazonas, por exemplo, escolheu na tarde de hoje (cinco horas à frente do Brasil) acompanhar a conversa com Ernst, por causa de sua mensagem mais "holista". Disse que o salão estava lotado.

Milhares se candidatam e são pré-selecionados por instituições nacionais, como o CNPq brasileiro, e depois escolhidos por um comitê. Há sete doutorandos e doutorados em química do Brasil na reunião – contra 168 da Alemanha, 91 dos EUA, 45 da Índia, 27 da China e dois de Gana, as cinco nacionalidades representadas no debate “estudantil”.

As palestras começaram para valer hoje (segunda). Depois de uma apresentação mais fascinante que compreensível do alemão Gerhard Ertl (Nobel de Química, 2007) sobre reações em superfícies de catalisadores, Ernst saiu do sério. Disse de cara que a “paixão” é a segunda perna da pesquisa e que ciência e arte têm como denominadores comuns a curiosidade e a criatividade.

Puxou uma longa fila de slides de laureados com um pé – ou pelo menos um hobby – na arte: Einstein e o violino, Feynman e o bongô, Djerassi e a literatura (já recomendei aqui e em minha coluna na Folha de S.Paulo seu romance “O Dilema de Cantor” e a peça de teatro “Oxigênio”). Ernst citou ainda Da Vinci, que tinha “mais pernas que uma centopéia”.

A perna em que o suíço se apóia para desentortar a andadura da pesquisa é a arte tibetana. Contou que ela o levou à história e à filosofia do budismo, às técnicas de pintura e restauração, à espectroscopia de pigmentos e ao papel de colecionador. E, por fim ao Nepal, para praticar um pouco disso tudo in loco.

Acabou se envolvendo, depois, com a iniciativa do Dalai Lama intitulada “A Ciência encontra Dharma” (nada a ver diretamente com a série de TV “Lost”, por favor), para levar o aprendizado de ciências naturais aos monges e monjas. Pediu que os jovens se candidatassem como professores e doassem dinheiro.

Sabedoria e compaixão, pelo visto, lhe fizeram muito bem. Produziu várias piadas durante a fala, em sintonia aparente com o humor sempre discernível nas entrevistas do Dalai Lama – saiu uma ontem no jornal “Welt  am Sonntag”, no qual o líder pacifista da revolta contra a China teve a pachorra de se dizer “um monge marxista”.

Ernst retomou a seriedade, ao final, para lançar um apelo compadecido aos 580 jovens: “Não se transformem em ‘nerds’ unilaterais. Não se esqueçam de suas paixões”. Foi longamente aplaudido. Será também lembrado?


O blogueiro viajou  para a Alemanha a convite da Fundação Reunião de Prêmios Nobel em Lindau.

Escrito por Marcelo Leite às 12h03

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Fusos horarios

 
 

Fusos horarios

Recebi da Associacao de Geografos Brasileiros, a proposito da coluna “Em Brasilia, 19 horas” (v. mais abaixo), a carta-manifesto abaixo (peco desculpas pela falta de acentos e cedilhas):

 

CARTA AOS SENHORES SENADORES SOBRE A ALTERAÇÃO NOS FUSOS HORÁRIOS DA REGIÃO NORTE

A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) vê com extrema preocupação a aprovação de projetos que procuram alterar os fusos horários para atenderem

aos interesses de redes de televisão diante da exigência para cumprimento da classificação indicativa do Ministério da Justiça.

Se aprovados e sancionados os PLS n. 177/08 do Senador Delcidio Amaral e/ou o PLS 468/08 do Senador Arthur Virgilio reduzirão os fusos horários

vigentes nos Estados de Amazonas, Mato Grosso e Mato Grasso do Sul e novamente o do Estado do Acre. Essas áreas passariam a obedecer ao fuso

horário de Brasília.

Se aprovados implica em dizer que os moradores das regiões Centro–Oeste e Norte do Brasil não merecem ser respeitados, tanto no que diz respeito à sua

saúde como em relação a classificação indicativa de programas televisivos. A preocupação da comunidade cientifica baseia-se nas seguintes questões:

1. O Projeto de Lei ignora que o Planeta Terra é divido em 360 meridianos, e que a cada 15 meridianos considera-se um fuso horário. Fazer com que cada

hora corresponda a 45 meridianos é desconsiderar que o Brasil é um país de dimensões continentais. Países com características semelhantes (Como os

EUA, Canadá, Rússia e Austrália) possuem inclusive um número maior de fusos horários, e este nunca foi um problema para a integração interna destas

nações, justificativa dos PLS.

2. Uma alteração desta natureza requer amplo debate com a comunidade científica, pois trará impactos significativos do ponto de vista biológico, social e

econômico que, tudo indica, foram desconsiderados pelos parlamentares que apresentam e defendem a proposta. Mudança semelhante causou sérios

prejuízos aos habitantes de Portugal, que foi obrigado a retornar ao seu fuso horário original, após tê-lo alterado em 1992 (quando de seu ingresso na União

Européia), como pode ser constatado em documentos do Observatório Astronômico de Lisboa.

A mudança que ocorreu no Acre com a aprovação da Lei (projeto de autoria do Senador Tião Viana, de nº 11.662 sancionada em 24 de abril de 2008) também

já está se fazendo sentir. As escolas são obrigadas a iniciar mais tarde o primeiro turno implicando em menor número de horas aulas, aumento do

consumo de energia, entre outras seqüelas.

3. Os Projetos de Lei revelam desconhecimento sobre o imediato aumento no consumo de energia que será ocasionado pela mudança. Estes estados da

federação, vale lembrar, não promovem o chamado ‘horário de verão’, já que estudos evidenciam que adiantar em uma hora o relógio nestas regiões não

promoveria a economia de energia, mas sim aumentaria seu consumo. Cabe também lembrar que as emissoras de televisão não alteram sua programação

nos estados onde não há horário de verão.

4. Os Projetos de Lei ignoram os prováveis impactos no metabolismo dos cidadãos e cidadãs dessas regiões, em especial nas crianças, com possíveis

resultados negativos, como a perda de rendimento nas atividades escolares, como já se observa no Acre. Com a sanção da medida, parcela substancial

destas populações terá suas primeiras atividades do dia ainda no escuro, com alterações biológicas que podem provocar sérios transtornos de saúde,

ocasionando, por exemplo, o aumento no consumo de medicamentos estimulantes e relaxantes.

Os parlamentares devem ignorar o significado de Ritmo ou ciclo circadiano que designa o período de aproximadamente um dia (24 horas) sobre o qual se

baseia todo o ciclo biológico do corpo humano de qualquer outro ser vivo, influenciado pela luz solar. O ritmo circadiano regula todos os ritmos materiais,

bem como muitos dos ritmos psicológicos do corpo humano, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília, passando pelo

crescimento e pela renovação das células, assim como a subida ou descida da temperatura.

5. Não houve um processo de debate amplo e transparente acerca da proposta, fazendo com que os únicos legítimos interessados na possível mudança, os cidadãos e cidadãs das áreas atingidas, não tenham tido a possibilidade sequer de compreender os impactos da alteração no fuso horário e, conseqüentemente, de se manifestar a respeito. Corrobora esta percepção o fato de que constava na versão original do PL que alterou o fuso horário do Acre a proposta de realização de plebiscito popular para estimular o debate nestas regiões e permitir uma decisão soberana de seus habitantes em relação à alteração permanente do fuso horário. Tal proposta, entretanto, foi suprimida na última versão do projeto.

* * *

Pelo exposto, enfatizamos a necessidade de que os PLS sejam retirados de pauta e que sejam realizados estudos aprofundados sobre os resultados que esta alteração provocará na vida das comunidades atingidas.

Trata-se de afirmar que sem pesquisas cientificas e um amplo debate público com as comunidades não é possível dimensionar o impacto da mudança, tornando, se aprovados e sancionados, os PLS de mudança de fuso horário, ato da mais profunda irresponsabilidade social, política e geográfica.

Considerando a grande importância das suas ações políticas no estado em que foste eleito comunicamos que estamos enviando esta referente Carta para a seção Local da Associação/AGB para que todos e todas possam acompanhar com Vossa Senhoria esta nossa luta.

Certos da responsabilidade de Vossa Senhoria com os cidadãos e cidadãs da Nação Brasileira, nós geógrafos e geógrafas contamos com Vossa sensibilidade política e humana.

Atenciosamente,

Alexandrina Luz Conceição

Presidente Nacional

Associação dos Geógrafos Brasileiros

Escrito por Marcelo Leite às 08h43

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O alcance ruralista

 
 

O alcance ruralista

No Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, caderno especial da Folha trouxe reportagem deste colunista sobre um estudo controverso, "Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista". Dados da Embrapa Monitoramento por Satélite afirmavam que só 29% do território nacional estariam disponíveis para a agropecuária.

A reportagem chegou a conclusão diversa da que animava o trabalho realizado sob coordenação do chefe da unidade da Embrapa, Evaristo Eduardo de Miranda, encampado pela senadora ruralista Kátia Abreu (DEM-TO) e pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes (PMDB-PR). "Sobra terra para a agropecuária no Brasil", avisava o título. E, mesmo que fossem só 29%, já daria para triplicar a safra nacional de grãos.  (...)

As objeções ao trabalho não partem só de ONGs ambientais, mas da própria Embrapa. (…) Um argumento é que o trabalho vem sofrendo seguidas modificações. Outro, que não passou pelo crivo de outros especialistas, como é praxe para estudos científicos. (…)

Miranda pondera que a publicação na internet funciona como uma consulta pública. À medida que surgem sugestões, críticas e discussões, os ajustes são feitos, diz. "O site não é uma publicação análoga a uma revista [científica]." Ele faz um paralelo com os dados de desmatamento na Amazônia produzidos periodicamente pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Estes tampouco são submetidos a periódicos científicos antes de publicados pela internet e anunciados pelo Ministério do Meio Ambiente.

O questionamento interno ao estudo da Embrapa subiu de patamar há duas semanas com a retirada dos nomes de dois coautores, Daniel de Castro Victoria e Fabio Enrique Torresan. Segundo a coluna apurou, o motivo seria discordância com modificações feitas sem consulta a todos os autores do levantamento.

Miranda confirma a exclusão, mas afirma que os resultados obtidos pelos dois pesquisadores não sofreram alteração. Diz que a iniciativa teria menos a ver com o conteúdo do estudo do que com a sucessão na chefia da unidade da Embrapa.

Do ponto de vista do público, pouco importa. Relevante é saber se o estudo realmente para de pé, e isso compete a especialistas dirimir. (…)


Leia a integra da coluna Ciencia em Dia (com desculpa por esta falta de acentos) na Folha de S.Paulo (aqui, so para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 08h17

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Mais ou menos fora do ar

 
 

Mais ou menos fora do ar

Este blog ficará mais ou menos fora do ar até dia 4 de agosto, por motivo nobre: férias do responsável. De domingo (28/6) até quinta (2/7) estarei no 59] Encontro de Prêmios Nobel de Lindau (Alemanha), de onde pretendo postar algo, mas depois o silêncio será mais provável. Até a volta.

Escrito por Marcelo Leite às 11h36

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Nature e SciAm, agora juntas

 
 

Nature e SciAm, agora juntas

Dois gigantes da divulgação científica - os periódicos científicos da família Nature e todos os produtos leigos da grife Scientific American - se encontram agora sob o mesmo teto, o do Grupo Editorial Nature (NPG) britânico. Leia o que diz comunicado distribuído a jornalistas de ciência pela Nature:


NPG e Scientific American estão se unindo em um único negócio, subordinado ao diretor administrativo do NPG, Steven Inchcoombe. As duas marcas icônicas de Nature e Scientific American posicionarão o NPG como o mais autorizado e abrangente grupo de mídia científica, abarcando do consumidor ao acadêmico, do estudante de ensino básico ao pesquisador.


É impressionante ver reunidas as duas fontes de informação que estiveram na origem de meu interesse e aperfeiçoamento como jornalista de ciência. A SciAm não figura mais como uma fonte relevante ou frequente de pautas para repórteres da área (e a Nature, cada vez menos), mas ainda assim são publicações para lá de respeitáveis, cuja leitura contribui muito para manter todos os interessados em pesquisa a par do que vai pelo mundo, sobretudo fora de suas áreas de especialidade.

Verticalização, porém, sempre traz seus riscos. A Nature montou uma máquina eficiente de divulgação antecipada do conteúdo de duas dúzias de revistas e periódicos, à qual se agrega agora a SciAm. Esse serviço é por vezes acusado de privilegiar trabalhos com mais apelo científico que jornalístico [CORREÇÃO em 25/6, 11h20: obviamente, "mais apelo jornalístico que científico"], e a estréia da SciAm fornece algum apoio à tese.

No site da Nature para jornalistas de ciência, o artigo destacado da SciAm versa sobre uso de técnicas forenses para localizar a origem de uma carga de dez toneladas de marfim ilegal apreendida em 2006. Leitura de interesse certo, pois envolve um elemento inconteste de sucesso na área - bichos, e ainda por cima bichos ameaçados e populares como elefantes. Note, porém, a capa da SciAm internacional de julho (não confundir com a tradução brasileira):

Capa da edição de julho (Reprodução)

O tema é a nova geração de biocombustíveis (álcool celulósico, obtido de restos vegetais, capim etc. - já apelidado em inglês de "grassoline"). Parece bem mais relevante, diante da necessidade mundial de desembarcar dos combustíveis fósseis, tanto é que ganhou a capa. Mas tem menos chance de atrair a atenção de repórteres de ciência, deve ser o cálculo.

Passei os olhos pelo artigo, bem informativo. Não toca, porém, na enorme diferença de rendimento entre cana-de-açúcar e milho para obtenção de etanol no momento presente, nem das sobretaxas protecionistas impostas pelos EUA (que usam milho) ao produto do Brasil (campeão da cana). "Cana" e "Brasil", aliás, são mencionados uma só vez na reportagem de capa.

Escrito por Marcelo Leite às 11h23

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Ciência e Mídia

 
 

Ciência e Mídia

Recebi comunicado sobre curso de jornalismo científico no Recife em setembro, que reproduzo:


Com objetivo de fornecer ferramentas para a reflexão sobre os mecanismos e os processos de cobertura de temas de ciência e tecnologia em diferentes meios de comunicação – como televisão, rádio e internet, por exemplo – e aprimorar sua cobertura jornalística, será realizado o curso "Ciência e Mídia – Capacitação em jornalismo científico", em Recife, de 2 a 4 de setembro.

 

O curso, que é gratuito, terá 50 vagas e será voltado para jornalistas interessados em jornalismo científico, que já atuem, ou não, na área. O programa do curso reúne palestras, mesas-redondas e atividades práticas ministradas por cerca de 20 profissionais com diversas atuações na área de divulgação científica.

Será oferecido auxílio – passagem, hotel e alimentação - para 20 jornalistas que atuem em universidades, institutos de pesquisa e meios de comunicação de massa no Nordeste, exceto Recife, local onde o curso será realizado.

O curso é uma iniciativa da Coordenação de Gestão do Conhecimento do Departamento de Ciência e Tecnologia/Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica/Museu da Vida/ Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, da Assessoria de Comunicação do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz e da Coordenação de Comunicação Social da Fiocruz.

SERVIÇO:

Início das inscrições: 22 de junho

Público-alvo: jornalistas que atuem em meios de comunicação de massa, universidades e instituições de pesquisa

Fim das inscrições e prazo para postagem de documentação: 27 de julho (não serão aceitos documentos com data de postagem posterior)

Formulário de inscrição: http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=2977 
Ementa e programação:
http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/ementacienciamidia.pdf
Mais informações: decit@saude.gov.br

Endereço para envio da correspondência:
Ciência e Mídia - Curso de Capacitação em Jornalismo Científico
Ministério da Saúde
Departamento de Ciência e Tecnologia
Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 8º Andar, Sala 851
70058-900 Brasília – DF

Escrito por Marcelo Leite às 14h14

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Em Brasília, 19 horas

 
 

Em Brasília, 19 horas

Há dez dias estive em Recife. No voo de volta, o Airbus-310 despegou-se da pista às 17h30. O céu já estava escuro, quase noite, como que agourando um percurso em que não faltariam avisos de apertar os cintos por causa de turbulências. (...)

Recife fica na longitude 35 Oeste. Geograficamente isso põe a cidade dois fusos horários à esquerda do meridiano de Greenwich (0). Ou seja, com duas horas a menos que Londres (UTC -2, na nomenclatura).

Pela lei nacional, porém, aquele extremo oriental do Nordeste e do Brasil está no fuso UTC -3. O sol se pôs naquela sexta-feira às 17h11, mas essa era a hora de Brasília, não de Recife. "Pela hora de Deus", como dizia o padre de Ubatuba que se recusava a adiantar o relógio da igreja no horário de verão, eram já 18h11. (...)

Leio agora que a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou a unificação de todos os fusos horários do Brasil. (...)

Nada mudaria no Nordeste. Pense, porém, na cidade de Cruzeiro do Sul (73 Oeste), no extremo ocidental do Acre. Até um ano atrás, e isso desde 1913, estava onde deveria estar, no fuso UTC -5 (duas horas a menos que Brasília). Mas a lei nº 11.662/2008 arrastou-a para o fuso UTC -4.

Vingando o que os senadores ora ensaiam, o pessoal de Cruzeiro do Sul avançaria mais uma hora, para o fuso UTC -3. (...) O nascer do sol foi às 7h01 na última sexta-feira. Imagine se os relógios estivessem marcando 8h01.

Seria uma crueldade com as crianças que vão à escola de manhã. Não basta levantar cedo, num horário em geral incompatível com a fisiologia do aprendizado. Para piorar, ainda teriam de sair de casa e começar as aulas no escuro. (...)

Brasília é um lugar estranho. Ali se acredita que, se a lei disser, as suas 19h valem para todo o país. Como se o Brasil inteiro falasse numa única voz -a voz do dono.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 19h01

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Novos sapos e outros bichos no Equador

 
 

Novos sapos e outros bichos no Equador


Hyalinobatrachium pellucidum (Foto: Luis Coloma)


Recebo da ONG Conservação Internacional comunicado à imprensa ("press release") sobre campanha rápida de levantamento de biodiversidade organizada no Equador. Leia trecho do comunicado e depois mais algumas imagens dos bichos.


As novas espécies foram descobertas durante um Programa de Avaliação Rápida (RAP, na sigla em inglês) da ONG Conservação Internacional (CI) nas florestas da Cordilheira do Condor no sudeste do Equador, uma área de grande importância biológica, ecológica e social, próxima à fronteira com o Peru. A expedição científica teve como foco a bacia do alto rio Nangaritza, que é isolada de outras regiões dos Andes em termos geológicos, o que ajuda a estimular a evolução de espécies endêmicas, ou seja, aquelas que não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo.

 

No total, foram descobertos quatro anfíbios, um réptil e sete insetos, incluindo uma salamandra de olhos esbugalhados e um minúsculo e venenoso sapinho-ponta-de-flecha do gênero Dendrobates. A CI espera que estas descobertas estimulem o governo do Equador a fortalecer a proteção da área, que fica próxima a um parque internacional da paz, criado no final dos anos 90 para marcar o fim das hostilidades entre o Equador e o Peru depois de décadas de disputa pela área fronteiriça.


 

Sapinho do gênero Dendrobates (Foto: Jessica Deichmann)

Salamandra do gênero Bolitoglossa (Foto: Jessica Deichmann)

 

Escrito por Marcelo Leite às 15h04

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Diligência

 
 

Diligência

Já usei outra oportunidade para recomendar aqui um livro do médico americano Atul Gawande, "Complicações" (Editora Objetiva, 2002). Repito a dose agora com "Better" ("Melhor"; Metropolitan Books, 2007), ainda sem tradução no Brasil.

(...)

Sua outra identidade o leva a frequentar a redação da revista "The New Yorker". Na edição deste mês, Gawande tem um artigo sobre custos de serviços de saúde. Vale a pena ler os parágrafos de abertura: "É primavera em McAllen, Texas. O sol da manhã está quente. As ruas são ladeadas por palmeiras e picapes.

McAllen fica no condado de Hidalgo, que tem a menor renda familiar do país, mas é uma cidade de fronteira, e uma próspera zona de comércio exterior que tem mantido a taxa de desemprego abaixo de 10%. McAllen se intitula Capital Mundial da Dança de Quadrilha. (...)

"McAllen se destaca, também, como um dos mais caros mercados de serviços de saúde do país. Só Miami -que tem mão de obra e custo de vida muito mais caros- despende mais por habitante em cuidados de saúde."
(...)

As palavras, conceitos, dados e cenas se encadeiam de forma quase natural. Ele escreve como quem sutura, camada a camada. Sem pressa nem desleixo, pontos sólidos mas não apertados. Quem contempla a cicatriz quase imperceptível mal adivinha as bordas do que já foi uma ferida aberta.

(...)

"Melhoramento é um trabalho perpétuo", sentencia Gawande logo na introdução. E se dedica a partir daí a traçar retratos comoventes de pessoas que se dedicam a ele de modo insistente, se não maníaco. Como Pankaj Bhatnagar, um pediatra e supervisor da Organização Mundial da Saúde que o autor acompanhou por três dias durante uma campanha de vacinação antipólio na paupérrima região de Karnataka, na Índia.

Pankaj vai de posto em posto interrogando vacinadores e auxiliares. Não faz reprimendas, mas suas saraivadas de perguntas invariavelmente trazem à tona falhas operacionais, como a encomenda insuficiente de gelo para acondicionar as doses.

Faz algo parecido com mulheres muçulmanas propensas a recusar a vacina dos hindus para seus filhos. Espinafra, porém, o funcionário que grita com uma delas. "Seus berros não ajudam em nada, assim como não ajudará a circulação do rumor de que estamos forçando as pessoas a tomar as gotas", transcreve Gawande.

O final do texto é primoroso, de humilhar jornalistas que se consideram bons redatores. As palavras são de Pankaj, mas Gawande as escolheu como fecho. Depois de perguntar ao colega o que faria quando a poliomielite acabasse na Índia, ouviu: "Bem, sempre haverá o sarampo".


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 14h53

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Três erres

 
 

Três erres

Os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e os 150 da publicação de "Origem das Espécies" não são as únicas efemérides da ciência em 2009. Neste ano celebra-se também meio século do nascimento de um conceito generoso: 3R.

Três erres: "replacement, reduction, refinement". Numa tradução forçada para preservar a aliteração: retirada, redução e refinamento. Substituir animais usados em pesquisa, reduzir seu emprego quando inevitável e diminuir seu sofrimento.
(...)

Os 3R foram propostos pelo zoólogo William Russell e pelo microbiologista Rex Burch em 1959, na obra "The Principles of Humane Experimental Technique" (título ainda mais difícil de traduzir, pois "humane" em inglês é o adjetivo reservado para quem mostra benevolência com animais). Seria algo como "Princípios Humanitários da Técnica de Experimentação com Animais".

O livro foi uma encomenda para a comemoração dos cem anos de "Origem". Nada mais adequado, pois Darwin foi um campeão da compaixão com animais. A começar pelo animal-homem, cujo sofrimento físico provocava nele uma repulsa intensa, a ponto de os biógrafos Adrian Desmond e James Moore enxergarem em sua recusa da escravidão uma das ideias-força da teoria da evolução.

Meio século depois, muito progresso se obteve nos três erres. Modelos computacionais do corpo humano, bonecos robóticos e culturas de células e tecidos permitem substituir testes de remédios e treinamentos cirúrgicos que antes dependiam de mamíferos (camundongos, cães, gatos, coelhos, macacos etc.). (...)

Apesar desses progressos, nunca se usaram tantos animais em pesquisa. Em parte isso decorre da explosão do campo de investigação biomédica nesse meio século. Com a capacidade de introduzir e "desligar" genes em organismos, camundongos transgênicos e "nocautes" se tornaram matéria-prima -ou vítimas- indispensáveis de laboratórios de ponta.

Muitos defensores dos direitos dos animais acreditam que já existem alternativas tecnológicas para substituir todos os animais em pesquisa. Infelizmente, não é verdade. Por outro lado, soa comodista demais a convicção de 73% dos pesquisadores britânicos de que cobaias nunca poderão ser dispensadas por completo dos laboratórios, como relatou a especialista Vicky Robinson na revista de divulgação "New Scientist". (...)



Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 10h39

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Dia do meio ambiente?

 
 

Dia do meio ambiente?

Para mim, todo dia é dia, mas enfim... A Folha de S.Paulo de hoje traz um caderno especial (veja índice das reportagens e artigos aqui, só para assinantes) que o comemora (ou rememora, não sei). Tem muita coisa boa, a começar pelo texto de Claudio Angelo, "Amazônia repete sina da mata atlântica", que retoma nosso guru Warren Dean.

Entre as coisas menos boas há dois textos meus. O primeiro crava que "Sobra terra para agropecuária no Brasil". Sua conclusão:

"Nada menos que 725 mil km2 (17%) da floresta amazônica já foram derrubados, em geral para formar pastagens e alimentar uma pecuária pouco produtiva. É o bastante para duplicar a safra de grãos. Não falta terra no Brasil - nem na Amazônia."

O segundo, "Alarmismo pouco é bobagem", defende as ONGs e arremata:

"Em 2000, Ipam e ISA lideraram a confecção de um relatório de grande repercussão sobre o impacto do plano Avança Brasil, do governo FHC. Previa que 180 mil km2 de floresta amazônica pereceriam como consequência, em três décadas, no altar do desenvolvimentismo ambientalmente imprevidente. Foi manchete da Folha em 13 de março daquele ano.

Pelos dados do Prodes, 167 mil km2 da Amazônia perderam a floresta de lá para cá. Passaram-se só 9 anos dos 30 projetados (6 deles sob Lula).
Diante disso se poderia afirmar, com objetividade e fundamento técnico, que alarmismo pouco é bobagem. Em especial diante de um governo que deita tanto carvão, gás natural e petróleo na fogueira eleitoral para requentar o Avança Brasil com o molho salgado do PAC."

Escrito por Marcelo Leite às 08h41

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Macacos verdes me mordam

 
 

Macacos verdes me mordam

(...) leitores mais interativos não pestanejam antes de agredir o jornalista, outros leitores e o próprio bom senso. Reeditei a experiência pela enésima vez na quarta-feira, ao noticiar no blog Ciência em Dia um feito biotecnológico significativo, a reprodução de saguis transgênicos e fluorescentes no Japão.

Para encurtar a história, direi só que a ideia dos pesquisadores da Universidade Keio é obter animais mais úteis para a pesquisa de doenças como Alzheimer e Parkinson. Em lugar de camundongos geneticamente modificados para desenvolver males semelhantes, pretendem usar macacos, bichos com fisiologia e constituição mais próximas do homem.

Esse é o objetivo final. Por ora, a equipe japonesa obteve só o que se chama de prova de princípio. Introduziu em saguis um gene de água-do-mar que faz o organismo exibir um brilho verde sob luz ultravioleta.

Não tem nada a ver com diversão. O propósito do brilho verde é verificar mais facilmente se o gene foi mesmo incorporado em todos os tecidos, inclusive nas células reprodutivas, como espermatozoides e óvulos. Foi, e o grupo conseguiu provar obtendo uma segunda geração de macaquinhos transgênicos verdes.

O assunto é polêmico, por envolver experimentos com animais e, pior, primatas. Assinalei esse aspecto controverso na nota do blog. Partilho da opinião de alguns especialistas em bioética de que macacos merecem mais proteção contra excessos em experimentação científica do que animais menos aparentados com seres humanos, como roedores.

Das cerca de 20 mil pessoas que leram a nota nas primeiras seis horas em que esteve no ar, 27 se animaram a comentar. Foi um festival de protestos contra o experimento.

Até aí, nada demais. Sentimentalismo com animais parece ser uma faculdade tão bem distribuída quando o bom senso cartesiano. O fato deprimente está nas expressões e raciocínios empregados, que de cartesianos não tinham nada.

Qualificar autores do estudo e o mensageiro da notícia como "idiotas" é um dos recursos mais usados. Prejulgar o experimento como supérfluo e cruel, outro. Defensores irrefletidos dos direitos dos animais adoram também desafiar os cientistas a se oferecerem, e a seus filhos, como cobaias de seus experimentos, em lugar de torturar os bichinhos...

Esse povo parece que nunca tomou remédios, todos testados em animais. Quantos não terão nascido por meio de cesarianas, ou foram salvos da morte por cirurgiões que treinaram técnicas de corte e costura na carne viva de cães e porcos inocentes?

Esta coluna é a primeira a advogar que não se pode dar carta branca a pesquisadores em matéria de experimentação com animais e que eles devem satisfação à sociedade sobre esforços para reduzir o sofrimento e o abuso nos laboratórios. Mas tudo tem limite -o limite do bom senso.


Leia íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h52

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Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão

 
 

Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão

Filhotes de sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus)

geneticamente modificado também nasceram com o gene para brilhar


O periódico científico Nature traz em sua edição de amanhã uma notícia perturbadora, ao menos para alguns leitores deste blog: pesquisadores do Japão liderados por Erika Sasaki (que desconfio ser brasileira, uma fisioterapeuta formada na PUC-PR em 1999, mas ainda não consegui confirmar a informação) conseguiram criar um sagui transgênico capaz de transmitir o gene extra - no caso, para produzir uma proteína fluorescente verde (GFP) - à sua prole.

Adendo às 21h30 de 27/5: Não encontrei nenhuma indicação firme de que Erika Sasaki seja brasileira. Creio que me precipitei. Uma pesquisa mais atenta no Google Scholar revela que a ES desse artigo na Nature atua no Japão pelo menos desde 1994.

Não são os primeiros macacos geneticamente modificados, mas sim os primeiros que tiveram o transgene incorporado à sua linhagem germinativa de células. No caso, uma macho cujos espermatozóides carregam o trecho de DNA introduzido para o bicho adquirir um brilho verde sob luz ultravioleta (o gene GFP é em geral usado como marcador, pois sua incorporação pelo organismo modificado pode ser facilmente constatada). Os dois macaquinhos da foto são filhotes dele.

O estudo está sendo saudado como uma façanha e ocupa a capa da Nature de amanhã. Ele abre espaço para prosseguir com parentes mais próximos do homem na avenida aberta para a pesquisa biomédica com camundongos transgênicos, cuja modificação genética permitiu criar roedores-modelo de doenças humanas para estudo mais detalhado e testes de novos remédios.

Seres humanos e roedores partilham ancestrais comuns que viveram há uns 75 milhões de anos. Já macacos do Novo Mundo como o sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus), nativo do Nordeste brasileiro, chegam muito mais perto de nós, pois nos separamos deles há uns 40 milhões de anos. Isso faz com que nossos corpos e os deles sejam muito mais semelhantes, o que facilita a compreensão da fisiologia de muitas doenças, em comparação com os camundongos.

Ser mais parecido quer dizer também mais próximo em outro sentido: para muita gente, inclusive alguns especialistas em bioética, macacos são seres mais "humanos", em certo sentido, com faculdades cognitivas e sensíveis mais parecidas com as nossas. Eles teriam algo mais parecido com consciência, talvez. Há quem considere que isso desautoriza coisas como a modificação genética, ou até mesmo o uso como animais de pesquisa biomédica, em que muitas vezes o experimento exige o sacrifício dos animais.

Escrito por Marcelo Leite às 16h13

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Células-tronco dão na vista

 
 

Células-tronco dão na vista

Recebi do leitor Tarciso Schirmbeck os comentários abaixo, acerca da coluna "Células-tronco à vista". Reproduzo-os com autorização do autor, pois creio que reforçam e ampliam a preocupação implícita na coluna:


Gostaria de parabenizá-lo pelo artigo deste domingo (24-05-09) no caderno Mais da Folha de S.Paulo. Esse artigo bastante me interessa por diversos aspectos: minha mãe (além de outros sete membros da família) tem retinose pigmentar; sou oftalmologista (naturalmente que motivos conscientes e inconscientes influenciaram minha escolha); fiz minha especialização no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (daí o fato de conhecer bem os pesquisadores mencionados – Rodrigo Jorge, André Messias, Rubens Camargo e Júlio Voltarelli).

Como todos os médicos tenho esperança que muitas (e não todas) doenças possam ter um melhor prognóstico, e até mesmo a cura, obtidos por meio do desenvolvimento de terapias com células-tronco. Nada seria mais indescritível do que observar uma melhora, mesmo pequena para os nossos desejos, da visão de minha mãe.

Devo, também, reforçar que confio na seriedade dos pesquisadores envolvidos (pelo menos se estes mantiveram os princípios da época em que os conheci). Todavia, conhecendo toda a complexidade das DEZ camadas da retina, da interação entre elas e, consequentemente, destas com as ouras partes das vias neurais visuais (corpo geniculado lateral, radiações ópticas, córtex occiptal etc.), torna-se difícil acreditar que algumas células-tronco indiferenciadas, simplesmente “jogadas” dentro do corpo vítreo, vão “promover uma recuperação da visão”.

Acredito ser esta etapa apenas um passo inicial desse processo, que teria como resultado somente avaliar a tolerância dos meios ópticos a esse tipo de célula, nada mais. Qualquer benefício ou estímulo não poderia ser creditado às células-tronco em si, mas à inflamação causada pelo procedimento e, naturalmente, ao efeito placebo envolvido em todo o contexto.

Não venho questionar a iniciativa, mas tão-somente a simplicidade do experimento perante a enorme esperança a ele creditado. Devemos acompanhar melhor a evolução desses trabalhos antes de qualquer comemoração precipitada.

Escrito por Marcelo Leite às 10h40

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Marcelo Leite Marcelo Leite é jornalista, colunista da Folha de S.Paulo e autor do livro "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp).

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