Ciência em dia
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Clima e desenvolvimento

 
 

Clima e desenvolvimento

Já está disponível o volume do Relatório Mundial do Desenvolvimento 2010: Desenvolvimento e Mudança do Clima, do Banco Mundial. Também pode ser baixada uma versão reduzida em português.

Dei uma "folheada" no relatório pela internet e achei interessante este gráfico:

Escrito por Marcelo Leite às 19h12

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Papel também aceita questões sobre clima

 
 

Papel também aceita questões sobre clima

Eis aqui um bom tema para o jornalismo científico investigativo: o que estaria por trás da "guerra" que já se inicia sobre a qualidade dos dados e projeções que fundamentam as metas de redução de gases do efeito estufa anunciadas no dia 13 pelo governo federal?

Parte do questionamento vem do governo tucano paulista, que lançou suas próprias metas (leia abaixo manifestação do secretário estadual de Ambiente, Xico Graziano) e tem interesse óbvio em partidarizar o debate (assim como o governo de Lula e Dilma Rousseff, claro). A mesma coisa se observa em questões de política externa (Ahmadinejad, Honduras) e do blecaute/apagão. Se os analistas não cuidarem de pôr alguma ordem nessas discussões, sua racionalidade ficará definitivamente comprometidas pelo clima de Fla-Flu.

O que se sabe é que as projeções do governo federal tiveram como um dos pontos de partida projeções do grupo interdisciplinar Rede Clima, que conta com muita gente séria. Mas uma coisa são estimativas e projeções, outra a decisão política de adotar esta ou aquela meta, esta ou aquela projeção.

A suspeita é que o governo federal tenha deliberadamente inflado as emissões futuras (leia reportagem de Marta Salomon hoje na Folha), de modo que elas possam facilmente ficar abaixo disso e dar a parecer, mais à frente, que o esforço de redução foi grande. Além disso, as metas sobre emissões do setor de energia e transportes embutiriam crescimento, e não redução.

Leia, a respeito, a nota de cinco ONGs diretamente envolvidas com o debate sobre metas:


Comentários sobre Cenários para Oferta Brasileira de Mitigação de Emissões

Os comentários a seguir – formulados pelas entidades abaixo listadas - visam contribuir para a discussão no quadro do Fórum Brasileiro de Mudança Climática a respeito do documento apresentado publicamente pelo governo brasileiro em 13 de novembro de 2020. Em decorrência dos prazos exíguos, outras organizações relevantes da sociedade civil não puderam ser consultadas em tempo hábil.

1.CONSISTÊNCIA. A memória de cálculo apresentada é parcial e incompleta, o que impede de fazer uma avaliação consistente de linhas de base e objetivos. A ausência de um inventário nacional atualizado sobre fontes de emissões e sumidouros e que considere  a evolução da matriz acaba por permitir  interpretações subjetivas e auferições que dificultam o debate. Agora, a falta de transparência sobre os cenários tendenciais traz dificuldade adicional para comparar opções possíveis e viáveis de mitigação.

2.TRANSPARÊNCIA. As opções e cenários relevantes deveriam ter sido discutidas, antes de seu lançamento público, diretamente com organizações da sociedade civil, a academia e o setor privado, expandindo a participação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Estas consultas ofereceriam aos tomadores de decisão cenários alternativos, com as justificativas para tanto.

3.COMPARABILIDADE. Além de cenários relacionados com projeções futuras - amplamente discricionárias em seus pressupostos - deveria se produzir cenários comparados com a realidade objetiva das emissões atuais, incluindo os custos das opções de tecnologias de mitigação. Isso tornaria o debate no Fórum e na sociedade mais claro e transparente, focando a especificidade e potencial de cada setor.

4.INTERPRETAÇÃO. Em termos gerais – e em relação ao ano-base mais recente, de 2007 - o cenário objetiva uma redução expressiva nas emissões de mudança no uso da terra (LUC), a estabilização das emissões no setor agropecuário e um aumento muito explosivo – e inusitado - no setor de energia, incluindo transporte. A participação do setor industrial parece inexpressiva tanto no cenário tendencial, quanto na mitigação, o que aponta para a necessidade de ajustes e correções, como nos casos de resíduos e cimento. De qualquer forma, o cenário médio de 2020 seria caracterizado por uma estabilização da emissão total em relação a 2007, porém com uma mudança radical na participação dos setores de LUC e energia, que inverteriam seus papéis atuais na matriz.

5.UNIÃO E ESTADOS. Ao traçar os cenários tendenciais e de redução, deveria se levar em consideração os compromissos internos legalmente vinculantes assumidos pela União e pelos estados: no caso em questão, as projeções nas áreas de energia, indústria e agropecuária não parecem levar em conta o compromisso de São Paulo, que concentra um terço do PIB nacional, de reduzir suas emissões em 20% até 2020 em relação ao ano-base de 2005. São Paulo deveria atingir sua meta legal principalmente a partir das três áreas acima referidas, nas quais o cenário de objetivos para o Brasil prevê um aumento médio de 41% em relação ao mesmo ano-base de 2005 (passando de um total de 882 MTe em 2005 para 1.276 MTe no cenário reduzido médio de 2020). É necessário evitar duplos padrões em relação às metas estaduais.

6.USO DO SOLO. No setor de LUC pode se registrar a principal novidade, a inclusão de objetivos de redução de desmatamento no Cerrado em 40%, além da confirmação dos anteriores objetivos relacionados com a Amazônia. Trata-se de uma novidade positiva, embora a relativa escassez de remanescentes do bioma sugeriria adotar objetivos mais ambiciosos. De qualquer forma, em geral, cabe questionar quais considerações levaram a estabelecer, para 2020, um cenário tendencial de emissão de 1.084 MTe, superior aos 770 MTe de 2007 e até aos 1.060 MTe de 2005. A volta para padrões de desmatamento da primeira metade desta década não parece condizente com as tendências em andamento, mesmo se  considerarmos a recente queda de 2009 um evento conjuntural. O principal questionamento a respeito dos corajosos objetivos no setor de LUC, contudo, dizem respeito à viabilidade e efetividade de sua implementação, a partir de políticas públicas - nas áreas de reforma agrária, normativa florestal, fundiária, infraestrutura, fomento para as cadeias da pecuária e dos produtos florestais - não alinhadas com os objetivos declarados.

7.AGROPECUÁRIA. No setor de agropecuária, a estabilização das emissões parece um objetivo aquém do que a conjuntura do setor poderia proporcionar, principalmente a partir da racionalização e eficiência no segmento da pecuária bovina. A recuperação de pastos degradados parece ser cogitada numa escala de aproximadamente 10% da área atual. Não é sequer mencionada a redução de emissões de metano oriundas da fermentação entérica bovina (responsável pela maioria das emissões de metano do país) e de N2O oriundo dos dejetos., o que apresenta importante potencial de mitigação por meio de investimentos integrados em confinamento, nutrição animal e tratamento de resíduos. Dados os benefícios adicionais aos de mitigação – aumento da produtividade e rentabilidade, geração de empregos, impactos na malha hídrica, etc. - algumas das metas, como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária, deveriam apresentar níveis de ambição maiores.

8.ENERGIA. As estimativas relacionadas com o setor de energia (que inclui transporte) surpreendem e ameaçam comprometer a credibilidade do documento como um todo. Tanto o cenário tendencial de aumento de emissões em 159% sobre 2005, quanto aquele “reduzido” de 103%, não apresentam justificativa plausível, superam qualquer projeção linear de crescimento de acordo com o PIB ou a população, não levam em conta o estado da arte da discussão sobre tecnologias e os estudos brasileiros mais recentes e desconsideram o enorme volume de perdas na matriz elétrica. Principalmente, o cenário parece pressupor uma forte carbonização da matriz produtiva do país, que levaria a aumentos ainda maiores de emissão total após 2020, quando a redução residual no setor de LUC não permitiria mais compensar o aumento do setor de energia. O valor absoluta e relativamente insignificante atribuído aos possíveis ganhos de eficiência energética (12 a 15 MTe) sinaliza falta de credibilidade neste segmento do cenário. Vale destacar que o recente estudo aprofundado, realizado pelo Banco Mundial em parceria com instituições acadêmicas e do governo brasileiro a respeito do potencial de mitigação, projeta um cenário de aumento tendencial das emissões neste setor de 86% até 2030 em relação a 2008, e um cenário de mitigação com um aumento de meros 23%. Além disso, os objetivos restritos à mera expansão de oferta - de hidroeletricidade, biocombustíveis e energias renováveis – não representam um fonte de redução em si: trata-se de uma grave inconsistência, pois a redução ocorreria apenas na medida em que tais fontes substituíssem outras, e não pelo simples fato de se expandir sua oferta.

9.INDÚSTRIA. O cenário apresenta uma projeção tendencial de aumento de 51% das emissões na área industrial, reduzida para 40% no cenário desejado para 2020. Contudo, sua participação é mínima no quadro geral. A partir da falta de quaisquer informações sobre o que está incluído ou não nesta conta é legítimo questionar se não há omissão de algumas fontes importantes, como o cimento e os resíduos. Mas é peculiar que a única fonte de redução prevista em todo o segmento seja aquela relacionada com a substituição do carvão vegetal oriundo do desmatamento na siderurgia, com carvão oriundo de plantação. A rigor, a redução oriunda desta substituição deveria já ser contabilizada na mudança de uso da terra e não está claro se houve alguma dupla contagem. Mas chama a atenção a ausência de qualquer outra atividade de mitigação num setor em que haveria grande potencial relativo. Destaca-se também a falta de consideração do potencial de mitigação dos resíduos: com base no citado estudo do Banco Mundial e instituições acadêmicas e de governo brasileiras, esta área apresenta um dos potenciais mais expressivos, com uma redução possível de 80% em relação ao cenário tendencial de 2030 e de dois terços em relação às emissões de 2008. O investimento na redução de emissões do setor industrial tem o potencial de tornar os produtos brasileiros mais competitivos, a partir do aumento da eficiência dos processos produtivos, em um cenário de mercado internacional cada vez mais restrito a atividades poluidoras.

10.CONCLUSÃO. O fato de apresentar, tanto para fins de debate interno quanto internacional, uma disposição política para objetivos de mitigação da mudança climática deve ser considerado positivo e devidamente ressaltado. Contudo, são necessárias mais transparência, debate público e consistência para a credibilidade dos cenários de referência e de mitigação, assim como uma profunda revisão de todo o trabalho na área de energia/transporte e instrumentos consistentes para viabilizar efetivamente os ambiciosos objetivos na área de LUC. Essa clareza é fundamental para o envolvimento dos vários setores da sociedade, e especialmente para a atuação consistente das distintas áreas e esferas do Poder Público, nos esforços para um desenvolvimento sustentável com baixas emissões de carbono..A este respeito, por exemplo, chama a atenção de um conjunto de medidas para envolver o consumidor. Estima-se que o valor per capta das emissões brasileiras seja da ordem de 12 toneladas (t) CO2 em 2005, o que supera a média da Europa. As informações que poderiam auxiliar o consumidor a ter papel decisivo na escolha e promoção de padrões sustentáveis não chegam até o elo final dessa cadeia. Ao desconsiderar medidas que poderiam alterar drasticamente os padrões de consumo, o governo desperdiça importantes oportunidades de mitigação.

Amigos da Terra – Amazônia Brasileira
Greenpeace Brasil
Instituto de Defesa do Consumidor - IDEC
Sociedade Brasileira de Economia Ecológica
Vitae Civilis - Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz

Escrito por Marcelo Leite às 15h25

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Recado de Walter Franco

 
 

Recado de Walter Franco


 


O compositor Walter Franco enviou uma simpática mensagem a respeito de minha coluna "Berço e criação". Com sua autorização, e algo cabotinamente, reproduzo-a abaixo:


É necessário e sintético o seu perfeito artigo intitulado "Berço e criação". "O Determinismo genético saiu de moda na academia". Saiba que me sinto homenageado imerecidamente e com meu walter ego em perigo.E não é prá menos.

Transcrevendo suas palavras. "Incrível: descobri no Google que o imortal Walter Franco tem uma música intitulada "Quem Puxa aos Seus Não Degenera". Nela se encontra a seguinte estrofe, que talvez nos inspire a ser mais tolerantes com as feras criadas por aí: "Daí meu pai disse / meu filho, espera / a inocência que há / no olhar da fera".

É fundamental a leitura e a reflexão do seu texto na íntegra, na parte mais interna, no cerne da alma, na essência. Com tamanho elogio, o melhor é que eu tente me reduzir a zero. Por nossos ancestrais e nossos filhos. Por todos os que fizeram, os que fazem e os que farão parte da Raça Humana receba o meu abraço mais o agradecimento.

Walter Franco

Escrito por Marcelo Leite às 12h16

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Reação do tucano Xico Graziano

 

Recebo do secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Xico Graziano (PSDB), os seguintes comentários sobre minha coluna "Papel aceita tudo, até metas":


Eu tenho criticado, entre minha turma, essa inaceitável deficiência sobre nossos inventários de emissões. Parece incrível que um assunto dessa importância, como o aquecimento global, se baseie em dados tão incertos, previsões obscuras, projeções arriscadas. Por essa razão, na lei paulista sobre mudanças climáticas, o primeiro dos compromissos públicos será publicar o inventário das fontes, para depois discutir e aplicar metas setoriais de redução. Nesse sentido, a meta de 20% para 2020, sobre a base de 2005, se torna obrigatória para o planejamento estratégico da ação governamental.

Em seu artigo, você ameaça comparar o volume de redução de CO2 anunciado pelo governador Serra, de 24 milhões de toneladas de CO2-equivalente (Teq.), com a previsão feita pela Dilma Roussef, da ordem de 1 bilhão de Teq. Realmente os números muito se distinguem. Ocorre que nós partimos de uma premissa cautelosa, supondo que as emissões totais paulistas estiveram em 120 milhões de Teq. em 2005. Essa estimativa se baseou nos dados ainda de 1990, atualizados pelo Oswaldo Lucon, especialista da SMA no tema. Alguns analistas imaginam que as emissões paulistas estejam o dobro disso, na ordem de 200 a 250 milhões de teq. Veremos.

Agora, independentemente de quanto seja o valor efetivo, a ser divulgado até meados de 2010, nosso compromisso será um corte de 20% nas emissões,  decomposto para cada setor produtivo.  Preferimos ser conservadores e prudentes, para não correr o risco de errar por presunção, cometendo exageros superestimados e ilusórios, como parece ser o caminho “tendencial” seguido pelo governo federal. Nós, claramente, não inflamos dados sobre a matéria ambiental.


Permita-me Xigo Graziano apenas acrescentar que já fiz uma comparação mais direta das propostas tucano-paulista e federal-petista, aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 18h27

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Nota do MST sobre desmatamento

 
 

Nota do MST sobre desmatamento

Recebi da leitora Mariana Moreau, a propósito da coluna "A motosserra, fogo e trator", de 18 de outubro, a seguinte manifestação do MST:


1- Nenhum dos oito assentamentos da lista dos maiores devastadores da Amazônia, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, localizados no Mato Grosso, é coordenado pelo MST. A presença de supostos assentamentos na lista dos maiores devastadores da Amazônia é conseqüência da política do governo federal, tanto na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso quanto do presidente Lula, de regularizar a posse de áreas sem critérios adequados para inflar os números da reforma agrária.

2- A pilhagem de madeira foi travestida de assentamento, como denunciamos ao lado do Greenpeace, em 2007. Foram criados assentamentos ilegais em benefício de madeireiras na Amazônia Legal. Investigações do MPF (Ministério Público Federal) e do Greenpeace identificaram a falta de laudos e licenciamento ambiental, além de cadastros adulterados, para criação formal dos chamados 'assentamentos fantasmas', destinados ao desmatamento de áreas florestais para extração de madeira.

3- A reforma agrária está parada em todo o país. Os assentamentos realizados não atacaram o latifúndio e a concentração de terras aumentou no país durante os últimos governos. Cerca de 70% dos assentamentos dos governos FHC e Lula foram criados em terras públicas, por meio da regularização fundiária na região da Amazônia Legal.

4- Participamos da campanha 'Desmatamento Zero', em defesa da Amazônia, ao lado de diversas entidades da sociedade civil. Exigimos a rejeição do Projeto de Lei 6.424/05, do senador Flexa Ribeiro (PSDB), que diminui a área de reserva legal florestal da Amazônia, e a medida provisória 422/08, conhecida 'PAG (Plano de Aceleração da Grilagem)', que possibilita a legalização da grilagem na Amazônia.

5- O Ministério do Meio Ambiente deve rejeitar esses projetos devastadores e tomar medidas rígidas para impedir a expansão do agronegócio na Amazônia, que é o principal responsável pelo processo de devastação. Nos últimos cinco meses de 2007, a pilhagem da madeira, a expansão da pecuária e da soja para exportação causaram a devastação de até 7.000 km2, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente."

Escrito por Marcelo Leite às 10h57

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Papel aceita tudo, até metas

 
 

Papel aceita tudo, até metas

(...) Duvidosos são os números projetados para a redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE) até 2020. (...)

Primeiro ponto nebuloso: por que se deu início a esse exercício de fixar metas sem antes finalizar o inventário de emissões brasileiras? (...)

[Q]uanto vai custar o esforço total de corte de emissões anunciado pelo governo federal? É a segunda grande questão sem resposta. (...)
 
Terceiro enigma: Por que a meta do governo paulista, anunciada dias antes, é tão desproporcionalmente mais baixa que a federal? José Serra falou em 24 milhões de toneladas de redução em 2020. Dilma Rousseff, em 1 bilhão. (...)

Por fim, ao inscrever as metas na lei nacional do clima como compromisso voluntário e não obrigatório, estaria Lula querendo dizer que se sente livre para não cumpri-las?


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 19h33

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Marcos Sá Correa, fotógrafo

 
 

Marcos Sá Correa, fotógrafo

Descobri que o jornalista Marcos Sá Correa, uma das cabeças à frente da competente Piauí (nossa New Yorker) e do site O Eco (leia aqui o que ele escreveu hoje), também se excede na fotografia. Foi por meio de seu blog que descobri essa outra face: feliz, como atesta a foto acima, feita no Parque Nacional de Iguaçu.

Não deixe de se maravilhar, como eu, com esta galeria de sua autoria no Flickr.

Escrito por Marcelo Leite às 19h27

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Meditação faz bem ao coração

 
 

Meditação faz bem ao coração

Ex-praticante de ioga, coisa que fiz por uns dois ou três anos (insuficientes para decorar os nomes dos chacras e todo aquele blablablá), andava precisado de uma boa desculpa para voltar. Agora já tenho: a meditação, sempre presente nas aulas que fazia, parece capaz de cortar pela metade o risco de ataques do coração.

Você poderá suspeitar dos resultados, que li numa notícia do boletim ScienceNow, porque foram obtidos por Robert Schneider, da Universidade Maharishi de Administração, em Fairfield, Iowa (EUA). Mas Schneider teve a colaboração de  Theodore Kotchen, da Escola Médica de Wisconsin, em Milwaukee. E o trabalho foi aceito para apresentação (ontem) no congresso da Associação Americana de Cardiologia em Orlando, Flórida.

Para o estudo, 201 pacientes pretos e pardos - "afro-americanos", na nomenclatura dos EUA - com obstruções coronarianas foram divididos em dois grupos. Um recebeu terapias convencionais. O outro praticou 15 a 20 minutos diários de meditação transcendental, técnica desenvolvida pelo guru indiano Maharishi, em média por cinco anos.

O segundo grupo teve 47% menos infartos, derrames e mortes que o primeiro. Medicamentos para reduzir o colesterol, como estatinas, reduzem o risco em 30-40%. Drogas que controlam a pressão arterial conseguem 25-30%, segundo a reportagem de Jue Wang na ScienceNow.

Espero que a ioga, se de fato voltar a praticá-la, melhore também a memória. Já ia postando esta nota quando sobreveio a sensação de já ter escrito sobre isso. Uma googlada - bendita memória artificial - revelou que o pressentimento era correto: há mais de três anos, em 14 de junho de 2006, escrevi a coluna "Meditação ajuda coração doente" para a Folha de S.Paulo. Dizia:


A meditação transcendental faz bem ao coração que sofre. Muita gente não acredita, por duvidar de tudo que venha de Maharishi Mahesh Yogi, ex-guru dos Beatles envolvido no passado em denúncias de sexo com suas fiéis. Mas quem diz, agora, é a sexta revista médica mais influente do mundo, a "Archives of Internal Medicine".

(...)

A hipótese do grupo de [Cathleen] Merz [pesquisadora do Centro Médico Cedars-Sinai] é que a meditação module a resposta do sistema nervoso ao estresse da vida contemporânea, uma bateria de sinais enviados ao corpo que compõe a chamada ativação neuro-humoral. Ela pode conduzir a uma série de problemas crônicos, como inflamações, que aumentam o risco de uma falha fatal do coração.

"O ensino de MT é altamente padronizado, de modo que o treinamento de mais de 50 participantes nos três anos de estudo foi consistente ao longo do tempo", explica [ Maura Paul-]Labrador [primeira autora do estudo].

No passado, as alegações de efeitos cientificamente comprováveis da MT deram origem a uma controvérsia acalorada, com acusações de fraude e preconceito. Mas Merz avisa que já está estudando a possibilidade de pedir financiamento para fazer um estudo maior ainda.

Escrito por Marcelo Leite às 09h54

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Berço e criação

 
 

Berço e criação


Ninhada de camundongos (Foto: Universidade da Califórnia em Riverside)


Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".

A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". (...)
 
É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano, teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980, houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou berço). (...)

Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a expressão desse conteúdo. (...)

A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina, associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu, ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA.

É óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h39

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As metas do Brasil - um avanço

 
 

As metas do Brasil - um avanço

A pedido da redação da Folha, escrevi comentário sobre o relativamente surpreendente anúncio de que o país se compormete a cortar pelo menos 36,1% de suas emissões de gases do efeito estufa até 2020. Eis alguns parágrafos:


Não fosse pela concessão aos ruralistas, o governo Lula terminaria a semana num nirvana ambiental. Primeiro, um recorde -desta vez de baixa- no índice de desmatamento, o menor de todos os tempos. Depois, a adoção da meta audaciosa de corte na emissão de gases do efeito estufa, 36-39%.

As coisas estão ligadas, e não só pelos dividendos de marketing. A três semanas de Copenhague, Lula e Dilma Rousseff tentam aplicar um verniz verde na imagem. Para isso, tiveram de mostrar resultados (desmate) e assumir compromissos (emissões), o que não deixa de ser um avanço. (...)

Parece que enfim começa a vingar no governo aquilo que Marina Silva chamaria de "transversalidade". Em linguagem popular: caiu a ficha de que as questões ambientais não podem mais ser consideradas meras perfumarias, algo a ser tratado por assessores de marketing. Devem integrar o cerne do planejamento, pois já constituem um componente crucial da noção de competitividade. (...)

O sintoma mais forte da transformação é oferecido pelo Ministério da Agricultura. Do conflito quase automático com a pasta do Meio Ambiente, nesse debate parece ter-se dado conta de que o enfrentamento da mudança do clima traz uma chance única de levantar recursos para expandir medidas de racionalização do campo que já ocorrem. Um quarto do potencial de redução de gases do efeito estufa está na agropecuária. (...)

Escrito por Marcelo Leite às 18h20

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Metas do clima: Itamaraty é a barreira

 
 

Metas do clima: Itamaraty é a barreira

O governo federal já decidiu que é 40% o número da meta - objetivo, compromisso interno, qualquer que seja o nome - de redução de gases do efeito estufa até o ano 2020. Na reunião de sábado, às 10h, o que vai ser decidido é se se anuncia o número ou só as ações elencadas para chegar a ele. Coisas do Itamaraty.

(Aliás, essa é a grande novidade do processo capitaneado por Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente. O número não é um simples chute. Baseia-se em estimativas, por certo, sobre quanto o país emite hoje e quanto estará emitindo em 2020, mas também no potencial de redução de emissões avaliado por especialistas, setor por setor, da energia à agropecuária, dos transportes ao reflorestamento. Não chega perto do orçamento de carbono adotado no Reino Unido, mas fica um pouco menos longe disso.)

Diplomatas têm horror a pronunciamentos e tomadas de posição que comprometam o país com qualquer coisa (parece que essa regra só não vale quando se trata de passar a mão na cabeça de Hugo Chávez). Se o país anuncia a meta numérica, obviamente poderá ser cobrado por ela. Esta é exatamente a ideia.

Os itamaratecas deveriam prestar mais atenção à fonte de boa parte do prestígio internacional de Lula e mesmo do doméstico. Seu governo caiu nas graças dos formadores de opinião, inclusive as Economists e Wall Street Journals da vida, depois que levou a sério compromissos de estabilidade financeira e macroeconômica.

E o que está no cerne dessa política tão ao agrado da metrópole financista? A política de metas da inflação, que vem sendo cumprida à risca pela administração Lula.

O que está em jogo agora é uma política de metas de emissão de carbono. Se enunciada só como promessas de bom comportamento, é para inglês ver. Se vier com números acoplados, é para inglês ver e acreditar. E cobrar, como cobrarão os brasileiros.

Escrito por Marcelo Leite às 17h35

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Mais reitoria e co-autoria

 
 

Mais reitoria e co-autoria

Sinal dos tempos: a eleição para reitor da USP pode ter de ser realizada fora do campus, porque uma espécie de piquete impediu o comparecimento dos 324 delegados votantes. Mesmo quem não morre de amores por esse colégio eleitoral dominado por docentes (nem por eleição direta com a participação igualitária de funcionários e estudantes) percebe que tem alguma coisa errada aí.

Não acho que a suspeita de plágio no qual se viu envolvida a reitora Suely Vilela (leia mais aqui) tenha alguma relação direta com isso, a não ser pela coincidência da denúncia com a aproximação do pleito - imagino que alguém tenha interesse em queimar o grupo político da reitora. De todo modo, a acusação tratada neste blog suscitou uma correspondência com leitores  bem mais interessante que a questão do plágio em si, e por isso vale a pena voltar a ela.

Um desses leitores é o físico Peter Schulz, da Unicamp. Em reação à minha primeira nota e a comentários de leitores, ele escreveu:


Esse novo caso, levanta, entre outros, um aspecto importante: responsabilidades e contribuições de autores em trabalhos com um grande número de autores. É uma questão que vem sendo tratada há um bom tempo na comunidade, por exemplo, de física de partículas com experimentos realizados em grandes aceleradores. Mais recentemente temos os grandes projetos em rede, como os dos diferentes genomas.

Outras áreas da comunidade científica ainda não têm talvez uma "prática de gestão" de equipes com 10 ou mais participantes. Essa falta de gestão chega ao cúmulo de que o orientador da principal autora não revisa a versão final do artigo e nem se dá conta de que imagens estão sendo usadas.

Mas eu gostaria mesmo de chamar a atenção a vários comentários que levantam a questão de quem deve ser co-autor em um artigo. E alguns desses comentários precisam de respostas atentas.

A orientação de estudantes de pós-graduação não é uma atividade homogênea entre as diferentes áreas acadêmicas. Pelo que consegui vislumbrar ao longo dos anos, há diferenças importantes e o conhecimento dessas diferenças deve ser premissa do debate.

Nas chamadas ciências duras, os orientadores normalmente propõem o tema, introduzem o orientando à metodologia e discutem muito de perto os passos da pesquisa. Os resultados e o artigo são escritos a quatro mãos. Isso caracteriza claramente co-autoria.

Em humamanas esse prática é muito diferente, caracterizada por uma autonomia maior do estudante, que muitas vezes propõe o próprio projeto de pesquisa. Uma possível co-autoria aqui já é menos evidente.

Em orientações no âmbito de grandes projetos de pesquisa a identidade de uma dissertação ou tese é menos evidente a alguém de fora da comunidade.

Resumindo: estabelecer pontes entre as diferentes culturas acadêmicas parece-me cada vez mais uma condição importante para uma melhor avaliação pública de problemas éticos como os levantados na atua ldiscussão.


Respondi, então: Acho um pouco complicada essa argumentação em favor da co-autoria, porque no limite ela implica que o trabalho de mestrado e doutorado em ciências humanas tenha mais valor que o de ciências ditas duras, quase escolares. Será que os praticantes destas estarão dispostos a dar esse passo?

Schulz voltou à carga:


Questão complicada. Acho que não concordo contigo, mas sinto-me inquieto e com vontade de discutir o assunto. Abaixo vai, portanto, o meu relato pessoal, pois nisso minhas ferramentas de análise são bem escassas e preciso compartilhar então experiências pessoais.

Eu comecei a carreira como físico em meados da década de 80 e segui os passos do meu orientador, que propôs um projeto de mestrado (e depois também de doutorado). Era uma época em que a pressão por papers não era nem de longe tão intensa como é hoje e, mesmo assim, a prática de orientação/co-autoria parecida com o que acontece agora. Eu não questionei o modelo na época, nem discuti com amigos das humanas.

Quando me tornei um pesquisador independente segui o mesmo modelo de atuação e a minha produção científica é praticamente toda vinculada a orientação e colaboração com ex-orientandos. Sempre senti orgulho disso e agora com o teu questionamento preciso parar para pensar um pouco.

Vejamos:

1. A física se move por modas (outras ciências também, mas vou falar só da minha experiência pessoal), e os assuntos em moda são bastante competitivos, um monte de gente trabalhando neles no mundo todo. A chance de propor um projeto com o qual você se deparará publicado por outro grupo alguns meses depois é grande. Já aconteceu comigo e com vários colegas. Tem a ver com a grande internacionalização na Física.

2. Eu tenho a impressão de que em humanas o estudante tem uma tranquilidade maior para organizar seu projeto. Um grande amigo meu propôs um projeto sobre crônicas de um determinado autor sobre futebol. Conversando com ele, percebia-se que o temor de que alguém  fizesse algo muito parecido em alguma outra parte do mundo era muito pequena. Às vezes trabalha-se com documentos originais cujo acesso chega a ser praticamente exclusivo etc...

3. Em física, mesmo quando o orientador redige um projeto de doutorado, costuma existir uma espécie de cláusula (eu sempre coloco) que diz mais ou menos assim: "dada a dinâmica da área, o projeto proposto poderá ser modificado no decorrer de sua execução". E, em geral, as modificações acontecem e são relevantes. Aí entra o exercício de independência de um bom orientando. Uma vez acostumado a uma rede de referências que se modifica rapidamente, ele tem a segurança de propor essas mudanças de rumo.

4. Na minha vida profissional (e à minha volta) eu percebo que as orientações acabam sendo processo intensos. O contato com o orientando em vários momentos ocorre várias vezes por semana e durante horas, com intensas discussões sobre o projeto em si, que empaca, não avança, e uma descoberta parece ir para o ralo (não estou dizendo que seja seminal essa descoberta, mas a idéia é gerar conhecimento original num ambiente em que se sabe que a chance de "perder a corrida" para outro é grande).

Nesse momento não importa tanto se o currículo Lattes terá um item a menos ou não, mas o envolvimento pela oportunidade de ter a propriedade intelectual sobre a explicação de um fenômeno contagia orientando e orientador. Orientando e orientador passarem juntos noites em claro terminando juntos um manuscrito para uma conferência (antes das facilidades das TIC) era bastante frequente... Bem como reuniões nos fins de semana em função do entusiasmo do orientando querendo compartilhar uma sacada ou a "grande medida" que faltava para finalizar o trabalho, e não dava para esperar a segunda-feira.

Aliás, no meu departamento orientandos e orientadores convivem muito porque todos têm sala, computador e ficam no departamento quase que por tempo integral. Tenho algumas poucas informações de que isso é bastante diferente em vários outros departamentos em ciências humanas.

5. Em física não encaramos um estudante de pós-graduação como alguém que precisa mostrar sua independência com muita precocidade, embora alguns o sejam. Ele é orientado para obter essa independência ao final do doutorado. Casos como Einstein, trabalhando isoladamente em um escritório de patentes para revolucionar o mundo, são extremamente raros. Acho que esse exemplo em particular ajuda a sustentar uma lenda que não condiz em nada com o cotidiano da prática científica em física.

6. Para se ter uma idéa dessa competição, eu busquei no "scitation" (que é um buscador acadêmico com um recorte significativo, mas bastante incompleto, de revistas especializadas) a palavra "graphene" (grafeno, o tema de duas orientações minhas): aparece em 608 artigos em 2009, até 7/11.

Olhando essa lista rapidamente, notei 3 entre os 10 primeiros diretamente relacionados com os aspectos das duas orientações.

7. Bem, eu oriento no momento 3 estudantes em conjunto com uma pós-doutoranda, que assina/assinará artigos de pesquisas em conjunto. O meu desejo íntimo, nem sempre realizado, é que o orientando acabe fazendo um trabalho sozinho, no final, quando consegue se defender das feras nessa selva. Antes disso seria uma frutração muito grande, a chance de sempre perder a corrida é muito alta.


Enfim, acho que existem diferenças culturais importantes e acho que você chama a atenção a um problema que merece uma visão de vários ângulos: afinal o que é orientar nas diferentes áreas?

Escrito por Marcelo Leite às 11h37

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Clima: Serra Seis X Meia-Dúzia Lula

 
 

Clima: Serra Seis X Meia-Dúzia Lula

A Folha de hoje traz uma análise minha, feita a pedido, comparando a proposta do governador paulista José Serra para corte nas emissões de gases do efeito estufa (20% sobre o nível de 2005) com a que pode ser adotada pelo presidente Lula depois de amanhã (38% a 42% sobre o que o país estaria emitindo em 2020).

Acho que ninguém vai ler. Primeiro, porque é complicado e até um pouco chato. Segundo, porque está todo mundo querendo saber do novo apagão, se foi obra de hackers etc. Quando passar o zunzunzum, como vai passar o do vestido de Geisy, o clima continuará em pauta. Então, vai aqui um aperitivo do que escrevi:


Caso o objetivo do governador tucano José Serra tenha sido diferenciar-se de Lula em sua política para a mudança do clima, já pode dizer que está para o presidente como Arnold Schwarzenegger para George W. Bush. Repete-se aqui fenômeno já observado nos EUA, onde alguns governadores se adiantaram ao governo central nessa matéria. (...)

Quem só tiver ouvido falar de percentuais de cortes nas emissões de gases do efeito estufa poderá sair com a impressão de que Serra ficou aquém de Lula. O primeiro fala em reduzir 20% desses gases até 2020. O segundo ainda não falou com clareza, mas pode anunciar corte em torno de 40% na sexta-feira. (...)


Não se sabe ao certo quanto o país emitiu em anos recentes. Serra usa o valor de 2 bilhões de toneladas de CO2 emitidas nacionalmente no ano 2005. O dado consta de um estudo realizado na USP de Piracicaba pelo pesquisador Carlos Cerri.

Projeções de um grupo de especialistas conhecido como Rede Clima indicam que o Brasil possa chegar a 2020 emitindo 2,7 bilhões de toneladas de CO2. Adotada a meta superior, de 40%, isso cairia para 1,62 bilhão em uma década. Menos, portanto, que as emissões de 2005 (2 bilhões de toneladas), mas um valor quase idêntico ao que se alcançaria se aplicada a regra de Serra (menos 20%, o mesmo 1,6 bilhão). Empate. (...)

Escrito por Marcelo Leite às 09h48

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O Muro

 
 

O Muro

Paula e Ana (no banco de trás) com soldado oriental na "Faixa da Morte" do Muro (Foto: Claudia Kober)

Hoje faz 20 anos que o Muro de Berlim começou a cair. Ainda não chegou de todo ao chão. A história tem um ritmo às vezes difícil de suportar.

Basta viajar a Berlim, como fiz em julho depois de 13 anos de ausência. Quem não for cego vai notar - em meio a toda a exibição de glamour arquitetônico - os guetos de desolação pessoal e desajuste. Não faltam solitários e casais de meia idade esperando passar o tempo em bancos de praças de concreto com mato crescendo entre as rachaduras, um sanduíche vagabundo na mão, ou a garrafa.

A Queda do Muro, maiusculizada, não pode contudo deixar de ser comemorada e rememorada por quem já antes, mesmo que de esquerda, abominava as práticas soviéticas (e chinesas, por falar nisso). Era uma farsa que se acabava.

Talvez a maior farsa de todas se encenasse na Alemanha Oriental, com seu nome ridículo: República Democrática Alemã. A única coisa que abundava ali era falta de liberdade. Todo mundo vigiava todo mundo, parente contra parente, amigo desconfiando de amigo. Um encrave provinciano em que todos falavam uma língua de filósofos mas que se presta tão bem a enunciar ordens para cães.

Cada um que tenha nascido antes de 1970 extrairá da Queda do Muro suas próprias lições. As minhas se resumem a um alerta contra o entusiasmo em política. Daquele momento histórico prenhe de júbilo e euforia a memória preferiu reter mais cenas constrangedoras do que esperançosas.

As filas de alemães orientais para coletar seu Begrüßungsgeld, um troco que a rica Alemanha Ocidental dava de presente para os primos pobres que atravessavam pela primeira vez a fronteira, antes da reunificação em 3 de outubro de 1990.

Em 1º de julho do mesmo ano, dia da unificação monetária, a multidão reunida na Alexanderplatz erguendo notas de cem marcos no ar, como troféus. Quatro anos depois, veria pela TV cenas similares com o lançamento do real no Brasil.

Numa visita a fábricas fechadas em Bitterfeld - a Cubatão alemã-oriental -, ex-gerentes comunistas, ou gerentes ex-comunistas, fazendo rapapés para os novos patrões ocidentais enquanto afastavam às cotoveladas os jornalistas.

Soldados soviéticos com rostos infantis e asiáticos, no domingo de folga em Potsdam, posando para fotos ao lado de Mercedes-Benz e de turistas tão embasbacados com seus quepes monumentais quanto eles com os carrões.

Berlinenses ocidentais resmungando - ou hostilizando abertamente - contra os poloneses e ciganos romenos que invadiram a cidade nos primeiros meses de 1990 e passavam como gafanhotos pelos supermercados, esvaziando prateleiras de leite e de sabão em pó.

A história acontecia diante dos olhos, mas seus trabalhos, como na guerra, tinham um quê de mesquinho, sujo, pedestre. Era uma rendição em câmera lenta, inescapável e necessária, mas abjeta.

Pessoas que só haviam aderido ao socialismo por imposição ou oportunismo se livravam dele com um duplo rancor - contra o capataz comunista que fingia pagá-los enquanto fingiam trabalhar e contra os ricaços ocidentais que fingiam abraçá-los enquantro troçavam deles pelas costas.

Foi isso que testemunhei durante seis meses, de março a setembro de 1990, enquanto morei em Berlim Ocidental, como correspondente da Folha. A maior parte do Muro ainda estava lá, nos pedaços que qualquer passante podia descascar com formões e marretas alugados. Mas também nas cabeças, mais duras.

O governo democrata-cristão de Lothar de Maizière, encarregado de apagar a luz da RDA, se esforçava por manter as aparências de dignidade. Não era uma derrocada, mas uma nação que soberanamente se lançava nos braços de um país-irmão, de igual para igual. A seu lado, uma doutora em física e porta-voz não muito loquaz ouvia tudo e aprendia, sem a vocação de De Maizière para o rodapé da história: Angela Merkel.

Dos briefings quase diários de Merkel sobre a negociação do tratado de reunificação seguia para o Centro Internacional de Imprensa. Não havia internet, nem telefones celulares, apenas máquinas de escrever, fax e telex. Sendo esta a ligação mais barata, era opção obrigatória naqueles tempos de Plano Collor.

Funcionárias uniformizadas e monoglotas (quando muito conheciam rudimentos de russo) recebiam o texto em qualquer língua e o transcreviam de graça, com eficiência prussiana, em fitas perfuradas, que depois seriam empregadas para transmitir com rapidez a reportagem para o Brasil. Aos poucos, elas foram desaparecendo, engolidas na implosão da burocracia. Ao final, sentava e escrevia os textos diretamente na máquina de telex, em ligação direta com o Brasil.

Tudo ruía lentamente, como o Estado socialista, sob o peso da própria inoperância. O centro de imprensa ficava em Berlin-Mitte, na banda oriental, para onde seguia diariamente de carro saindo de Charlottenburg (bairro de Berlim Ocidental que abriga a famosa avenida Ku'Damm). Nas primeiras semanas, sendo estrangeiro, só podia cruzar a fronteira pelo Checkpoint Charlie, na Friedrichstraße.

Os guardas de fronteira alemães-orientais eram de início minuciosos e rudes, ciosos da reputação de atirar para matar. Verificavam o visto no passaporte e examinavam a parte debaixo do veículo com espelhos. Mandavam invariavelmente abrir o porta-malas do Corolla 1982.

Começaram então, imperceptivelmente, a relaxar. Um esquecia o espelho; noutro dia era o porta-malas. Lá por julho ou agosto o agente de gravata desfeita só acenava com a mão de dentro da cabina, como um guarda de trânsito ordenando que a história se acelerasse.

Não dava para passar mais depressa. O recinto estava cheio de obstáculos, barreiras e meandros. A história, como ensinam os livros de Stephen Jay Gould sobre evolução, se faz com o material disponível.

Sempre dá para mudar, mas não muito, nem necessariamente na direção almejada. Acaso e passado têm um peso enorme. Progresso é uma outra história, na qual foi bom deixar de acreditar.

Escrito por Marcelo Leite às 18h44

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Mais do mesmo - ética na academia

 
 

Mais do mesmo - ética na academia

A propósito do post abaixo, recebi as seguintes observação de outro leitor (que também pede para ficar anônimo):


1 - Primeiramente, uma correção: Marcos Fontes é da UNESP de Botucatu, atualmente vice-chefe do Departamento de Física e Biofísica do Instituto de Biociências.
 
2 - Uma frase do texto: "Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?"
R.: Não é o ideal, mas sim. A área de pesquisa de Andreimar Soares tem poucos pesquisadores formados, então acaba sendo natural que co-autores de trabalho acabem sendo membros de banca, por entenderem do assunto.

3 - Outro trecho: " É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês."
R: Andreimar Soares é pioneiro no Brasil no isolamento e estudo de toxinas de jararaca. Em função disso, muitos pesquisadores pedem ao prof. Andreimar que ceda estas toxinas, para utilizarem em seus respectivos trabalhos.
Provavelmente, a "moeda de troca" que o professor  pede é que ele seja co-autor dos artigos resultantes dos trabalhos. Daí a grande quantidade de artigos publicados.

Escrito por Marcelo Leite às 16h02

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PERFIL

Marcelo Leite Marcelo Leite é jornalista, colunista da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".

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