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Um Oscar para Fred Pearce

Pena que não existe Oscar nem Nobel para jornalismo científico investigativo, essa 'avis rara'. Se existisse, Fred Pearce levaria - fácil, fácil - o de 2010. Ele escarafunchou os 1.073 mensagens de e-mail furtadas/vazadas de pesquisadores do clima, no escândalo que ficou conhecido como "Climagate" (em inglês, "Climategate") e tem publicado no diário britânico The Guardian uma série de reportagens reveladoras sobre como se faz a ciência realmente existente - inclusive a do clima. Os "céticos" e negacionistas da mudança do clima/aquecimento global antropogênico (causado pelo homem) estão se deliciando com a série. Mas não vão gostar muito de um das matérias recentes de Pearce, esta aqui. Mas recomendo também, para quem manter a cabeça aberta sobre a questão, ler ainda esta e esta.
Escrito por Marcelo Leite às 22h10
Brasileiros "ocupam" hospital canadense no Haiti


Fotos: André François/ImageMagica Leia abaixo os primeiros parágrafos da reportagem (aqui, só para assinantes) publicada ontem na Folha com uma bela foto de André François, parceiro constante da ONG Expedicionários da Saúde de quem reproduzo mais duas.
O ortopedista Ricardo Affonso Ferreira, de Campinas, é adepto da aventura. Quatro dias depois do terremoto no Haiti, estava em Santo Domingo com três toneladas de materiais hospitalares à espera do enfermeiro Hernane Santos, de Manaus, e de uma oportunidade para tratar vítimas da catástrofe. Uma semana depois, conseguiu começar a operar com uma equipe de nove médicos brasileiros. Já estava em "seu" hospital, o Brenda Strafford, pequeno estabelecimento canadense especializado em oftalmologia. Fica em Les Cayes, cidadezinha à beira-mar, a 200 km e seis horas de viagem de Porto Príncipe. O tremor ali foi fraco, só caíram dois prédios. A catástrofe veio depois, como um tsunami de gente: mais de 80 mil refugiados da capital. "Já estava cheio de quebrados. Amputamos muita gente", conta, por telefone. "Começamos com pequenos procedimentos -limpar feridas, amputações que fossem mais necessárias. Devagar começamos com as fraturas, algumas fixações externas. Agora já fazemos 12 a 18 procedimentos por dia."
Escrito por Marcelo Leite às 12h26
Tecnologia ianomâmi 
A casa coletiva da aldeia Watoriki (Reprodução/Foto: William Milliken) A coluna (aqui, só para assinantes) Ciência em Dia de ontem, na Folha, trata de um belo livro, "Urihi A - A Terra-Floresta Yanomami", de onde foi extraída a foto acima. Infelizmente, deixei de levar em conta as respostas abaixo que me foram enviadas por um dos autores, Bruce Albert, pois elas só chegaram às minhas mãos na sexta-feira, quando a coluna já estava impressa. Esta é uma das muitas vantagens de publicar um blog. Sempre é possível complementar o trabalho jornalístico "normal", por assim dizer, com material adicional para os leitores que quiserem ir além. Com a palavra, Albert:
Houve versão anterior do trabalho publicada em outra língua? O livro é uma versão reescrita, reorganizada e muito atualizada (dados de campo, análise da bibliografia) de um livro publicado em 1999 pela editora do Kew Botanical Gardens, cujo titulo era "Yanomami – A forest people" (inédito em português). Você e Milliken são ambos antropólogos ou têm também formação em biologia/botânica? Eu sou antropólogo, francês, com doutorado (1985) pela Université de Paris X Nanterre, diretor de pesquisa do IRD (Institut de recherche pour le développement) e pesquisador associado do ISA. Trabalho com os Yanomami desde 1975 e criei a CCPY em 1978 com a Claudia Andujar e o Carlo Zacquini. William, inglês, é doutor em etnobotânica pela Universidade de Cambridge (1999) e chefe da Unidade de Botânica da América Tropical nos Royal Botanic Gardens, Kew. Começou a trabalhar comigo nos Yanomami em 1993. Trabalhou também no Brasil com varios povos indigenas além dos Yanomami: Macuxi, Wapixana, Ye'kuana, Waimiri Atroari, Wai Wai, Ingariko. Em poucos trechos do livro são usados nomes comuns das plantas. Na maioria das vezes aparecem só os nomes científicos e Yanomami, o que dificulta a leitura por leigos como eu. Foi uma escolha deliberada? Foi uma escolha deliberada sim, por varias razões: - muitas das plantas usadas pelos yanomami simplesmente não têm nome popular em português (aliás, algumas vezes nem havia nome científico: uma foi nomeada com o nome da aldeia de Watoriki/Demini: Trichilia watorikensis – ver na página 36 a nota abaixo da tabela; outra é provavelmente uma nova espécie – ver fim da nota 63 p.46);
- os nomes populares introduzem frequentemente mais confusão do que ajudam. Eles são, na maioria das vezes, muito vagos e frouxamente abrangentes, podendo se referir a várias espécies muito diferentes;
- finalmente, é provável que os leitores das cidades ignorem a imensa maioria dos nomes populares das plantas da Amazônia, tanto quanto os nomes científicos.
Pensamos então que ficaria muito pesado no texto acrescentar esses nomes populares pouco confiáveis (quando disponíveis) sem muito ganho para os leitores. A ideia subjacente foi que os especialistas (botânicos, antropólogos, indigenistas etc.) possam se referir aos nomes científicos e yanomami enquanto as descrições e discussões do texto podem dar aos eventuais leitores não especialistas um apanhado geral da riqueza do conhecimento botânico dos Yanomami sem que eles tenham que conhecer cada planta mencionada. Quem quiser saber mais só precisa googlar os nomes científicos para conseguir fotos e bibliografia com muita precisão… Se você tivesse de escolher dois usos de plantas por Yanomami que são muito característicos e incomuns, que divirjam do acervo geral de tecnologias amazônicas, quais seriam? Tem várias coisas de destaque no conhecimento botanico yanomami: - por exemplo, sua considerável farmacopeia vegetal oriunda quase exclusivamente da floresta (o número de plantas medicinais que registram já coloca os yanomami entre os detentores das mais ricas farmacopeias da Amazônia indígena) - 215 plantas, ver p. 120;
- pode ser também a excepcional diversidade dos seus venenos de pesca: ver pp. 69-73 e Tabela 7;
- ou coisas mais curiosas como a importância dos cogumelos na sua dieta (mais de 20) ou seu consumo alimentar de flores como a da árvore na+hi - sobre tudo isso ver pp. 45-47.
Foi esse estudo que o levou para pesquisas no território Yanomami? E Milliken? Quando vocês chegaram lá e quanto tempo permaneceram?
No meu caso, não. Cheguei nos Yanomami no começo de 1975 para trabalhar num projeto da Universidade de Brasília-FUNAI destinado a proteger os Yanomami do impacto da Perimetral Norte (projeto dirigido pela Profa. Alcida Ramos, UnB). Portanto trabalho com os Yanomami no Brasil há 35 anos. Passei anos com eles e continuo trabalhando lá várias vezes ao ano com o ISA e a Hutukara Associaçao Yanomami. Pedi em 1993 ao William para vir trabalhar comigo sobre a etnobotânica yanomami. Fizemos várias viagem de campo juntos nos anos 1993-1995 e 2002 com uma duração total de 3 ou 4 meses. Ver páginas 19 e 20. Mas obviamente estão atrás dessas pesquisas meus 30 anos de trabalho e amizade com os Yanomami. Por que escolheu estudar a etnobotânica dos Yanomami? Para documentação de usos que possam depois ser (mal)apropriados por cientistas ou empresas não-índias, ou isso não teve peso na decisão? Nossa pesquisas começaram no quadro de demandas da ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e seus projetos de campo (assistência em saúde e projetos ambientais) _ ver pp. 20-21. Nos anos 1993-95 era um estudo para resgate de conhecimento de plantas medicinais, em 2002 um estudo sobre impacto do garimpo na TI [Terra Indígena] Yanomami. Finalmente decidimos ampliar a pesquisa para dar um panorama dos conhecimentos botanicos yanomami a partir de nossos dados e da literatura sobre esse grupo. Como menciona a introdução do livro, os Yanomami são muito conhecidos por várias coisas: guerras e polêmicas a propósito da sociobiologia, seu xamanismo, sua vitimização pelo garimpo, as polêmicas do livro do Patrick Tierney e recente documentario de José Padilha etc., mas não por uma coisa muito óbvia: seu extraordinário conhecimento e uso da floresta (ver na conclusão do livro por que este saber se destaca entre os povos da Amazônia pp 149-152). Mostrar isso nos pareceu uma maneira de contribuir para reforçar as justificativas da preservação da TI Yanomami no seu formato atual (a CCPY, cujas atividades foram desde o ano passado assumidas pelo ISA, lutou de 1978 até 1992 para conseguir a homologação da TI Yanomami). Portanto, nosso trabalho sempre teve um cunho de engajamento em prol da causa yanomami. Além disso, foram mencionadas no livro somente identificações de plantas já descritas e bem conhecidas na literatura etnobotânica. Para as demais optamos por proteger os conhecimentos inéditos específicos aos Yanomami não mencionando seu nomes científicos no texto do livro: ver nota 196 p. 121. Essas espécies foram selecionadas por terem sido registradas e publicadas em outros estudos com as mesmas indicações medicinais atribuídas pelos Yanomami. Nomes de espécies cujas indicações medicinais parecem ser peculiares aos Yanomami foram suprimidos desta e de publicações anteriores, no intuito de minimizar o risco de violação dos seus direitos de propriedade intelectual (vide Milliken e Albert, 1996; 1997a). Se boa parte da farmacopeia Yanomami é partilhada com vários outros povos indígenas da Amazônia, como ficaria a questão da propriedade intelectual e da repartição de benefícios em caso de isolar-se e sintetizar-se um princípio ativo de aplicação comercial? Quem deveria ser tomado como titular desse conhecimento tradicional gerador de valor?
Não sou um especialista nesse assunto e a ideia de mercantilização dos conhecimentos indígenas não me agrada muito de uma maneira geral. Boa parte das plantas usadas pelos yanomami é, como pode se imaginar, idêntica à de muitos outros povos indigenas da Amazônia. Só uma pequena parte é específica. Finalmente, a problemática de royalties para uso de plantas medicinais comuns à maioria dos povos da Amazônia ou de algumas grandes regiões (patrimônio coletivo intelectual imemorial) é meio insolúvel, a não ser que esses royalties sejam atribuídos talvez a federações de associações que representam uma maioria dos povos da região ou de sub-regiões com uma porcentagem especial para o povo onde o trabalho de pesquisa que desembocou na identificação da planta e do princípio ativo foi realizado (o povo "porta de entrada" do conhecimento coletivo enquanto conjunto de pesquisadores indígenas associados). Mas, repito, não sou um especialista em questões legais nesse campo e isso é uma hipótese improvisada que deveria ser debatida em primeiro lugar com os povos indígenas.
Escrito por Marcelo Leite às 12h01
Colombo e a sífilis

Gravura de sifilítico atribuída a Albrecht Dürer (1471-1528) Com algum atraso, chamo a atenção para reportagem que saiu sexta-feira passada na Folha. Reproduzo só os três primeiros parágrafos:
Quem for ao portal do Ministério da Saúde pesquisar sobre a sífilis encontrará que a doença sexualmente transmissível, de péssima fama, foi levada por marinheiros de Cristóvão Colombo da América para a Europa, no final do século 15. Uma informação errada, segundo estudo que surgiu de um curso de pós-graduação da USP. A disciplina foi ministrada um ano atrás por Sabine Eggers no Instituto de Biociências. Sob o título "Variabilidade em Homo sapiens: aspectos genéticos e ambientais", não tinha a princípio nada a ver com sífilis. A geneticista deixou os alunos escolherem o que queriam fazer. Eles optaram por estudar o efeito da evolução darwiniana na medicina, aprender paleopatologia (estudo de doenças em vestígios fósseis) e escrever um artigo científico. O resultado saiu em formato eletrônico no periódico "PLoS Neglected Tropical Diseases", dedicado a doenças tropicais negligenciadas, em janeiro: uma refutação da hipótese de que a doença só tenha chegado à Europa depois de 1492. Os marinheiros de Colombo e as índias com quem tenham mantido relações sexuais foram inocentados da acusação de ter iniciado a epidemia que devastou Nápoles em 1495. Leia mais aqui.
Escrito por Marcelo Leite às 10h59
Novos questionamentos sobre autores do IPCC
Assim como defendo o conjunto da obra do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) nas últimas duas décadas, não posso deixar de noticiar quando novas acusações contra ele vêm à luz. Graças ao leitor roelf.cruz@yahoo.com.br , tomo conhecimento de reportagem no diário britânico The Guardian nada abonadora para Phil Jones, figura central no escândalo das mensagens de e-mail hackeadas da Universidade de East Anglia - já abordado aqui como "Climagate". Duas observações rápidas: 1) Fred Pearce, veterano repórter da cobertura sobre aquecimento global, é insuspeito de conspirar contra o IPCC; 2) Não deixem de atentar para a seguinte frase de sua reportagem: "The revelations on the inadequacies of the 1990 paper do not undermine the case that humans are causing climate change, and other studies have produced similar findings. But they do call into question the probity of some climate change science" (As revelações sobre as inadequações do artigo de 1990 não solapam a afirmação de que seres humanos estão causando a mudança do clima, e outros estudos têm produzido achados similares. Mas eles põem em questão, sim, a probidade de parte da ciência da mudança do clima). Dito isso, não posso deixar de anotar: mesmo sendo um caso isolado, é péssimo para o IPCC. Seus inimigos se apegarão a esses casos lamentáveis para pôr sob suspeita todo o corpo de trabalhos (quatro relatórios com o estado da arte da climatologia) do órgão, que ainda é o melhor esforço de sistematização da pesquisa sobre aquecimento global disponível.
Escrito por Marcelo Leite às 16h17
Mês cruel (...) Hoje, o jornalismo econômico mais sério e menos editorializado (ideológico) começa a fazer as contas de quanto custa não pensar e planejar de modo ambientalmente estratégico. São cálculos difíceis de fazer. Qual o prejuízo para a economia de uma megalópole como São Paulo depois de quase 40 dias de chuvas torrenciais? Não perdem só os mais pobres entre os pobres -tudo: muitos parentes e poucas posses- nos tugúrios úmidos de tábuas e blocos que equilibram sobre barrancos. Madames adiam incursões ao shopping. Sacoleiras partem mais cedo da 25 de Março, com receio do temporal vespertino. (...) Leio no jornal "Valor Econômico" que só a elevação do piso de três pavilhões do entreposto Ceagesp pode custar de R$ 60 milhões a R$ 100 milhões. Engana-se o paulistano se achar que isso não afeta o seu bolso. O custo-enchente é partilhado por todos, seja nos preços em alta, seja na fuga de empresas e empregos da cidade afogada. Agora imagine que a chuvarada de janeiro possa não ser exceção, mas sintoma de um distúrbio novo. Meteorologistas e climatólogos, ciosos da precariedade inerente a suas previsões, hesitam em vincular o aguaceiro à mudança do clima. Um leigo, porém, está livre para especular. (...) Seriam três os fatores convergindo para sustentar tamanha anomalia: 1) El Niño, o aquecimento anormal da superfície do Pacífico junto à América do Sul, que faz chover mais no Sul-Sudeste do Brasil; 2) águas do Atlântico mais quentes -cerca de 2C- que o usual; 3) excesso de umidade proveniente da Amazônia. (...) Todos os três fenômenos relacionados acima, se não chegam a ser a arma fumegante do aquecimento global causado pelo homem, mostram-se pelo menos compatíveis com as previsões gerais sobre mudança do clima. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 11h01
As geleiras continuam derretendo 
Se você leu abaixo que o IPCC pisou na bola na sua previsão de que as geleiras do Himalaia poderiam derreter poer completo até 2035, leu também que a mancada não invalida toda a interpretação em seu Quarto Relatório de Avaliação (AR4) de que o derretimento de geleiras EM GERAL ameaça o fornecimento de água para populações da Ásia. O Himalaia guarda uma das mais famosas geleiras do mundo, mas é apenas uma entre milhares, e na média tudo indica que elas estão mesmo encolhendo. Veja o gráfico acima. Ele apresenta um resumo do acompanhamento sistemático e padronizado de uma centena delas realizado pelo Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras (WGMS), respeitado centro com sede na Suíça. Se tiver curiosidade, veja os dados publicados anteontem - é o tipo da informação que você não vai encontrar em blogs, colunas e sites de "céticos" (negacionistas) da mudança climática.
Escrito por Marcelo Leite às 16h32
Clima midiático

Geleiras do Himalaia, pomo da discórdia sobre o IPCC Aconteceu de novo: uma referência fajuta foi parar num documento sobre aquecimento global e gerou uma afirmação bombástica reproduzida por toda parte. Neste caso, foi o "Quarto Relatório de Avaliação" (AR4) do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). A certa altura, o AR4 afirma que as geleiras do Himalaia estão retrocedendo e poderiam sumir até 2035. O governo indiano questionou o dado em novembro passado. A previsão tinha aparecido pela primeira vez, mais de uma década atrás, numa entrevista de outro cientista indiano ao jornalista britânico Fred Pearce, mas nunca chegou a ser corroborada com dados em uma publicação científica. Apesar disso, a previsão acabou chegando ao AR4. Como fonte, o relatório do IPCC cita um documento da organização não-governamental WWF. Este, por sua vez, dá como referência reportagem de Pearce na revista de divulgação "New Scientist" -de 1999... (...) Os "céticos" (negacionistas) da mudança do clima aproveitarão a munição para lançar novas investidas, sem mencionar que a predição fajuta em nada altera a conclusão geral do AR4 de que o retrocesso de geleiras ameaça o fornecimento de água para centenas de milhões de pessoas na Ásia. O "modus operandi" dos negacionistas é conhecido: destacam todo deslize ou dado isolado que enfraqueça a interpretação de que o clima está mudando e omitem o crescente conjunto de evidências que a apoiam. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 11h24
Em busca de Francis Crick  Cold Spring Harbor Laboratory Press, 538 págs. US$ 45 Se você acha que James Watson era o mais charmoso da dupla Watson-Crick, precisa ler a biografia de Francis Crick que Robert Olby escreveu. O caderno Mais da Folha publicou domingo passado uma resenha (aqui, só para assinantes) do livro, mas nada substitui a leitura da obra original. Reproduzo abaixo os dois primeiros parágrafos da resenha e recomendo também a leitura da entrevista com Crick que a Folha publicou em... 1998!
Arrogante, invasivo, megalômano... Quem já sofreu os efeitos da legendária capacidade de análise de Francis Crick (1916-2004) poderia enfileirar muitos adjetivos depreciativos para qualificar o físico britânico que descobriu a estrutura molecular do DNA em 1953, com o americano James Watson. Poucos o fizeram, porém. O brilho irradiado por esse gigante da biologia sempre ofuscou as áreas de sombra em sua vida e sua personalidade. A primeira coisa a apontar na competente biografia intelectual por Robert Olby é que as zonas escuras estão lá. Autor de um clássico sobre a biologia molecular, "A Trilha para a Dupla Hélice" (1974, nunca traduzido para o português), o historiador da Universidade de Pittsburgh teve acesso ao acervo pessoal e ao próprio Crick em seus últimos anos de vida, mas essa proximidade não produziu uma mera hagiografia
Escrito por Marcelo Leite às 16h36
Sapo devidamente engolido
Alguns herpetólogos estão em pé de guerra por causa da coluna "A consciência do cururu". Veja por exemplo a manifestação que recebi de Vanessa Kruth Verdade, pesquisadora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo:
Tem sapo que não dá pra engolir! Diz-se por aí que "quem ama o feio bonito lhe parece". Sou herpetóloga (que é o especialista em anfíbios e répteis) e trabalho há anos com sapos, rãs, pererecas, parte da lista de "seres indignos de comiseração", como mencionado no texto de Marcelo Leite sobre a "consciência do cururu". Por que trabalho com sapos? Porque sou capaz de enxergar por trás dos medos e crendices de quem não os conhece. Aquela pele úmida e fria é o órgão mais importante dos sapos, que, além de permitir a respiração, produz uma quantidade incrível de substâncias químicas que os protegem e mantêm saudáveis. É interessante dizer que o veneno de hoje ajuda pessoas amanhã. Quantas pessoas sabem que existem analgésicos, peptídeos que combatem tumores, testes de gravidez, inibidores do vírus HIV e mais uma infinidade de fármacos que estão sendo elaborados a partir do veneno de sapos? Mas e o cururu com isso? Pois é, o veneno do cururu também contém inúmeras substâncias que atuam diretamente no coração e nos vasos, com potencial para tratamento de doenças cardíacas. Visto assim, o veneno do sapo não parece algo tão ruim! Mas, então, o pobre bichão (o cururu é uma das maiores espécies de sapos brasileiras) estava feliz da vida vivendo onde sempre viveu, pelo interior do Brasil, quando alguém teve a infeliz idéia de levá-lo para a Austrália. E pra lá ele foi. Chegou e fez o que sabe fazer: ser um cururu, comer o que lhe cabe na boca e reproduzir. Só isso. O que veio depois, na verdade, não tem mais nada a ver com o cururu. Mas o problema foi criado. E pra resolver? Primeiro a gente arruma um culpado - o sapo. E resolve como? Os cururus devem ser eliminados, mortos. Sem dor na consciência. Espera! Na consciência de quem? Dos voluntários que estão resolvendo um problema que também não criaram e têm consciência disso? Ou dos cururus? Que não têm consciência? Ou têm? Aha! Chegamos a um ponto importante. Certamente cururus não têm aquela consciência do tipo "penso, logo existo", mas têm algo que chamamos senciência (consciência de sensações e sentimentos). Sapos cururus sabem quando algo vital para se manterem vivos não vai bem, por exemplo se falta água, comida, se a temperatura não está de acordo, sentem dor e estresse (para saber mais sobre senciência leia o texto de Trajano e Silveira na revista Ciência e Cultura). Em outras palavras, sapos cururus não querem morrer, tendo consciência ou não dos motivos. Pensando assim, nada mais justo, que, se esse deve ser seu destino, sua morte aconteça com sofrimento mínimo. Que haja discussão a respeito! Que o ponto seja o sofrimento dos cururus e não dos voluntários! E que, nas próximas reportagens, discuta-se não o suposto absurdo de se estar considerando o bem estar de um animal que será morto, mas sim o problema das espécies invasoras e as consequências ambientais que as alterações provocadas pelo homem trazem!
Escrito por Marcelo Leite às 18h24
A consciência do cururu

Conheço poucos bichos horríveis como um sapo-cururu. O Bufo marinus é tão feio, mas tão feio, que chega a parecer simpático, se encarado com alguma boa vontade. Simpatia, porém, tem limite. (...) Além da feiura e do veneno (um coquetel de neurotoxinas capaz de pôr um cachorro mais empreendedor no bico do corvo), o sapo originário das Américas tornou-se uma praga em terras da Austrália, para onde foi levado em 1935. (...) Além da mortandade de insetos que nada tinham a ver com a história, muito bicho mais simpático anda esticando as canelas por lá depois de morder o Bufo marinus, com isso forçando mecanicamente a liberação das toxinas (é lenda a história de que o sapo "cospe" veneno). (...) Agora leio no boletim da revista "The Scientist" que em 2009 o cururu alcançou a Austrália Ocidental, Estado mais a oeste do país. E, com ele, chegou também a polêmica. O grupo de voluntários KTB-Kimberley Toad Busters (caçadores de sapos da região norte da Austrália Ocidental) está revoltado. Depois de matar mais de meio milhão de cururus em cinco anos de atividade, na tentativa de conter a marcha dos anuros para oeste, a ONG foi desprovida de sua principal arma antianfíbios, o CO2 (dióxido de carbono). A determinação partiu do Departamento de Ambiente e Conservação do governo estadual. Um pesquisador da repartição fez experimentos com alguns sapos-cururus, cujos resultados teriam sugerido que a morte por exposição ao CO2 talvez não seja humanitária o bastante. Suspendeu-se seu uso até que novos testes sejam realizados. O KTB se defende dizendo que o CO2 anestesia os bichos de imediato, sem sinais de estresse, e que eles ficam inconscientes até morrer. (...) E eu nem sabia que os sapos-cururus também tinham consciência, além de veneno...
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 18h19
Frota dos EUA encolhe

Apesar de sua banalização, as estatísticas servem para detectar fenômenos demográficos, culturais e econômicos mais profundos do que em geral é capaz de perceber a míope análise jornalística. Fiquei intrigado, por exemplo, com a informação veiculada - perdão pelo trocadilho - pelo Earth Policy Institute de Lester Brown: a frota automotiva dos Estados Unidos teria encolhido em 2009. O número total de veículos nos EUA vinha crescendo de modo mais ou menos constante (veja gráfico acima) desde 1950, chegando a uns 250 milhões. No ano passado, 14 milhões de unidades foram para o ferro-velho, mas só 10 milhões de modelos novos foram vendidos (certamente por efeito da crise econômica), levando ao saldo líquido de -2%. E a previsão de que o encolhimento possa alcançar 10% até 2020. Não é incrível?
Escrito por Marcelo Leite às 12h40
Comendo moscas e mosquitos

Recebi do leitor Carlos Brisola Marcondes, da UFSC, os comentários abaixo sobre as colunas "L.I.X.O." e "Fenômeno editorial", os quais reproduzo com permissão do autor:
Apreciei muito seus artigos sobre "jeitinhos" de certos pesquisadores para engordar seus currículos. Tendo em vista que pesquisadores como eu, que trabalham em taxonomia, portanto publicando artigos de baixo impacto, são muito prejudicados pela atual mania deste tal impacto (quando ouço esta palavra, fico irritado e me lembro de Goering, quando disse: "Quando ouço falar de cultura, ponho a mão no revólver"), sugiro que analise impacto e meia vida de artigos. Por exemplo, qual é o impacto de uma revisão de mosquitos de 1942 e um livro de 1953 que utilizo para identificar meus mosquitos? E a meia vida? Por que, após 1956 somente uma espécie nova de um gênero de mosquitos (Phoniomyia) foi descrita desde 1956, e eu já encontrei 15 espécies deste gênero (das 23 conhecidas) em Florianópolis? O que pouca gente estuda é sem importância? Ou há modas de pesquisa? É cansativo publicar 5-6 artigos por ano, orientar vários alunos de graduação e de pós e receber sempre a resposta aos pedidos de verba: "infelizmente, seu projeto não atingiu o nível...", fora idiotices (do CNPq!) do tipo:"se seu projeto pretende coletar em Florianópolis, para que pediu passagens aéreas para São Paulo?".
Escrito por Marcelo Leite às 09h42
Fenômeno editorial

Reprodução (...) A coluna da semana passada, "L.I.X.O.", sobre a portentosa produtividade do egípcio Mohamed El Naschie, teve trechos reproduzidos no blog Ciência em Dia. Apenas o suficiente para dar uma ideia da controvérsia sobre centenas de artigos e milhares de citações do pesquisador, boa parte no periódico de matemática aplicada editado por ele mesmo, "Chaos, Solitons and Fractals" (CSF). E não é que houve gente saindo em sua defesa? Em lugar de ponderar as informações objetivas publicadas sobre as práticas de El Naschie, um leitor encontrou na blogosfera -e comprou por seu valor de face (zero)- uma teoria conspiratória: o egípcio seria vítima de pessoas acusadas de plagiar artigos do próprio El Naschie. (...) Importa é saber que a casa editora de "CSF", o famoso conglomerado holandês Elsevier, desembarcou El Naschie. (...) A empresa não encontrou ainda um novo editor para "CSF". Suspendeu temporariamente a recepção de novos artigos para "peer review" (auditoria de qualidade por outros pesquisadores que é tradição em publicações científicas). Apesar disso, a Elsevier continua cobrando 4.204 euros -mais de R$ 10 mil- da biblioteca que assinar a revista. (...) A Elsevier também se vangloria de promover o mecanismo de "peer review" por 125 anos. Ora, tal sistema existe justamente para garantir a qualidade e a honestidade das pesquisas publicadas. Basta um "CSF" para deixar sob suspeita todo o acervo, assim como uma laranja podre pode pôr a caixa inteira a perder. Não é a primeira vez que a editora se vê enrolada em denúncias de falhas graves no controle de qualidade. Em maio passado, a Elsevier reconheceu em nota que sua filial australiana havia publicado nada menos que seis periódicos científicos falsos, todos com títulos começando por "Australasian Journal of...". Em realidade, eram compilações de artigos não inéditos patrocinadas pela empresa farmacêutica Merck (...).
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo ( aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 21h15
Sobre L.I.X.O. 
Recebi da leitora Beatriz Couto os comentários mais abaixo, sobre minha coluna intitulada "L.I.X.O.". Ela é urbanista, professora titular de planejamento urbano e regional na UFMG, e trabalha desde 1984 com uma linha de pesquisa que, há coisa de dez anos, batizou de "relações sociais de produção intelectual". Leia:
Os casos extremos, como o relatado em "L.I.X.O.", seriam apenas um exemplo de tudo o que seres humanos são capazes de fazer por alguns minutos de glória ou trocados para financiar pesquisa, não fosse encobrirem uma mudança insidiosa que parece lançar uma grande parte dos pesquisadores atualmente a direcionar a pesquisa para garantir os índices de produtividade que os órgãos de pesquisa pariram sem maiores explicações. Toda essa febre de medição começa com Solla Price, físico americano dos anos 60 que teve a honestidade de fazer uma pesquisa de autoria de publicação em periódicos americanos centenários. Fazendo um gráfico do número de artigos publicados por pesquisador ao longo de uma vida científica, determinou que a linha de corte inferior para o quartil superior dos mais produtivos era dez artigos durante uma vida científica. Se a gente postulasse 30 anos de trabalho (deve ser menos), daria um artigo a cada três anos. Nos dias de hoje a expectativa é de três por ano, e há quem publique mais de 20. Se a gente ler Solla Price (o livro é Little science, big science) com cuidado, observa que a questão dele era identificar como se daria o relacionamento da elite intelectual com "o resto da massa de pesquisadores". Questão central para o atual produtivismo. E quem se qualifica como elite? Bingo: quem produz mais artigos dentro do darwinismo acadêmico, "publish or perish". E aí é que entram as mudanças nas relações de produção da universidade e órgãos de pesquisa. A mudança de regras de autoria em curso vem no sentido de reforçar o efeito de elitização sobre a coletivização do trabalho intelectual numa briga de foice para publicar: a elite, que controla os comitês editoriais, tem arbitrado em favor de seus próprios paradigmas, ao ponto de haver registros de membros individuais de órgão de pesquisa considerando que as revistas das associações nacionais de pós-graduação no Brasil já não poderem ser entendidas como representando pesquisa de valor internacional (observação: o movimento é internacional, mas neste país da perversão a céu aberto tudo é absurdamente feito às claras). Exemplos da deturparção decorrente: para manter os índices de publicação exigidos dos doutorados nível sete, já há grupos que não podem mudar a linha de pesquisa, mesmo que considerem que o problema está em outro lugar, porque, até que o resultado sobrevenha, terão perdido a classificação; indivíduos exigindo sua participação na autoria desde que "sua" máquina (comprada com o dinheiro público) seja utilizada; fatiamento do resultado em tantos trabalhos quanto possível (esta pedra o Solla Price cantou); mudar o título e fazer ligeiras alterações no conteúdo e publicar em diversos periódicos; gente assinando trabalho de orientandos (nota: há um milênio na universidade ocidental autoria é autoria, orientação é orientação, e a justificativa da mudança, devendo-se considerar explicitamente como tratar o caso de a coletivização do trabalho ser exigida por alguns temas, não fica clara se não se leva em consideração a corrida para atingir o topo dos índices de que o caso citado por você é seguramente o mais deturpado e o que melhor evidencia os métodos e objetivos da elite). E há mais outros exemplos da criatividade publicista. E claro, os órgãos de financiamento, as direções universitárias e os membros de comitês de publicação, confrontados com essas evidências, têm, com as exceções de sempre, a resposta pronta: isto é exceção decorrente de falha humana, B.L.A.B.L.A.B.L.A.
Escrito por Marcelo Leite às 16h15
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PERFIL
Marcelo Leite é jornalista, colunista da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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